Self

Psique: Se achar não significa ser. Mas, para muita gente, já é o suficiente

crédito: Metrópoles/iStock

“Pensa que é dona e eu lhe pergunto: quem te deu tanto axé?” O verso, citado por Caetano Veloso, corresponde a um questionamento muito presente no linguajar do soteropolitano. Remete ao candomblé, religião de hierarquia forte, na qual qualquer conquista deriva da transmissão de um mais velho para um mais novo.

Tal frase me vem à cabeça em diversos momentos. Para mim, ela é a melhor para descrever a tal da síndrome do pequeno poder. Diante dele, só mesmo atuando com a ironia debochada do linguajar baiano (afinal, só o humor nos salva de coisas tão mesquinhas).

Se achar não significa ser. Mas isso já é o suficiente para muita gente. Contentam-se em atuar de forma soberba em pequenos territórios, como se deles fossem.

Defendem cargos, postos e vínculos – mas não com o olhar de quem cuida, e, sim, de quem domina. Confundem-se com pequenas conquistas, perdem grandes oportunidades.

Tornam-se insuportáveis, evitáveis. Essa arrogância apaga qualquer carisma. Transformam-se naquela pessoa que é bonita, mas antipática. Rica, mas ostentadora. Sabida, mas chata. Poderosa, mas imprestável.

Cercando os soberbos, somente dois tipos de pessoas: os subalternos, que o admiram, e os oportunistas, que o invejam. Se são boas companhias? Fora delas, a solidão.

Em seu interior, percebem-se completamente desconectados desse “sucesso alcançado”. Nunca se satisfazem, vivem um vazio profundo. As glórias que buscam tentam, quase sempre, encobrir feridas profundas. É o analgésico que encontram para encobrir a dor que delas deriva.

A tristeza de ser assim geralmente bate quando se deparam com a transitoriedade das coisas. Sim, nada é para sempre. Nascemos em um mundo que já está pronto, e que carrega modelos. Ocupamo-nos de alguns deles. Quando vier a morte, um novo alguém assumirá tal função. Talvez melhor que nós mesmos.

Pensar assim não é subestimar a importância de cada um. Seria incoerente, uma vez que meu trabalho é, basicamente, fazer realçar a individualidade daqueles que me procuram. Em geral, a soberba não cabe naqueles que trazem consigo o compromisso do desenvolvimento.

Estes sabem que ser bem-sucedido não é só ter privilégios, mas principalmente responder a encargos mais sérios. Aprimorar-se naquilo que se destacam é uma meta repleta de significado, é realizar a própria vida. Querem ser lembrados pelo que foram capazes de transformar na terra, no outro. E não só por sua ambiciosa busca por alguma hegemonia.

Somos diferentes, apenas. Mas não superiores. A quem escala para se ver acima dos demais, um conselho: melhore. Se é para eternizar-se nas memórias do mundo, que seja de uma forma positiva, pelo que fez. E não por sua pretensão.

Psique: A vida não precisa estar ruim para que nos sintamos insatisfeitos

crédito: Metrópoles/iStock

A vida não precisa estar ruim para que nos sintamos insatisfeitos. Não carecemos de um problema exato, de um dilema identificado, de uma relação frustrada. Tudo pode estar nos eixos e, ainda assim, pairar uma sensação de estranhamento, de falta, de impertinência.

Depressão, a aposta óbvia, é o extremo patológico desse estado. Mas nem sempre chegamos a tanto: a vida está seguindo, funcionando, apesar do esvaziamento. Não se vê a solução num sedativo para o sofrimento. Aliás, sofrimento não é a melhor definição para aquilo que se sente.

Melancolia é o bom nome que os gregos criaram para definir esse estado: o veneno sombrio, a bílis da tristeza secretada pela alma. Ela escorre por nossos sonhos, alterando-lhes o sabor. O amargo afasta a doçura, deixa o paladar metálico, ríspido, pesado. Talvez daí venha o tal “gosto de cabo de guarda-chuva” – a metáfora para o estado melancólico da ressaca.

Nenhum afeto se apresenta sem um propósito maior. Existe em nós uma tendência quase compulsiva a querer correlacioná-lo a algum acontecimento exterior. Ignoramos, assim, que a dinâmica psíquica vai além de fatores sociais, relacionais e biológicos. Especialmente quando os isolamos para facilitar nossa observação.

A alma fala por uma linguagem própria, numa pertinência absurda. Chega a ser constrangedor quando, pela reflexão, conseguimos compreender algo que ela expressa. Constrange por percebermos que aquilo sempre esteve ali, só não éramos capazes de enxergar.

É como se, por um átimo, acessássemos todo o conhecimento do nosso universo particular. Em geral, a experiência mobiliza a ponto de alterar cursos e ritmos. Costuma colocar o trem novamente no trilho. Em alguns, é como se desesperasse ainda mais o maquinista: a vontade de agir faz com que ele descontrole ainda mais o manete. Imprevisibilidades da nossa mente.

A melancolia não escapa dessa regra. Se está ali, tem uma função – ainda que incompreendida. O mundo contemporâneo nega espaço a esta compreensão: não devemos perder tempo com aquilo que não afirma a produtividade, a forte atuação social e o sucesso.

Ignoramos que esse estado melancólico possa ser uma espécie de elaboração. É como um terreno que se prepara para a semente. A terra sendo remexida, a putrefação do adubo enriquecendo o solo, nascentes sendo desviadas para a irrigação. E o vazio desolador das covas nuas, vazias, à espera do que virá a brotar.

Suportar essa espera é um desafio, especialmente àqueles que “não têm tempo a perder”. Mas, para que sincronizemos relógios e calendários ao ritmo da alma, é preciso escutá-la. Reverenciá-la, até mesmo quando ela parece se esconder. Contentar-se com o mais sutil dos sinais que venha a oferecer, em vez de desejar que ela se manifeste algo arrebatador.

Nossa percepção é simplória demais para tudo aquilo que queremos saber. Assim, resta-nos confiar em um propósito maior, sempre que nosso eu se assemelha a um campo limpo. Concentrar-se na possibilidade, em vez da ausência. Somente assim teremos chance de acessar aquilo que é imenso e sublime em nós.

Psique: A indiferença é a mais cruel das condenações

Crédito: Metrópoles/iStock


indiferenca

Dois risquinhos azuis, que ocupam uma meia dúzia de pixels na tela do WhatsApp, são capazes de destroçar alguém frágil. Olhares que não se cruzam no elevador da repartição, e a sensação incômoda da invisibilidade que sucede o ocorrido. Alguém segura a porta para que o vizinho avance e é como se ela se mantivesse aberta por algum dispositivo artificial. E, por um instante, uma pergunta vem à cabeça de quem vivencia tais situações: será que ainda existo?

Se num primeiro momento soa esdrúxula, a questão ganha muita pertinência quando pensamos um pouco sobre ela. Parece cena de filme de gente que já morreu e ainda não sabe. Ou seja, que não pode mais ser percebido, considerado, valorado, qualificado.

Na indiferença, não é somente “matar” o outro na relação, o que asseguraria ao “morto” quem foi, a história que viveu. É a destituição dele do direito pleno de existir – seja como alguém adorável ou detestável. É incorpora-lo na massa estéril de mundo, excluí-lo do rol da humanidade. A mais terrível e cruel das formas de tratamento.

Anular o futuro
É claro que, quantitativamente, somos muito mais ignorados do que percebidos na trajetória da vida. Não somos tão magnéticos assim. Também não se trata de acreditar que conseguiremos tratar todos com paridade, destinando-lhes o carinho, o apreço e a atenção devidos. A ração para alimentar ilusões românticas está cada vez mais cara.

A indiferença à qual me refiro é aquela realizada, deliberada, que contém um grau de perversão em seu núcleo. Escolher ignorar o outro é anular suas potências e, assim, retirar-lhe qualquer possibilidade de futuro – seja ela qual for.

A neurociência atestou a gravidade desse comportamento. Bebês tratados com indiferença terão prejuízos no desenvolvimento, se comparados a crianças acompanhadas por cuidadores que as olham nos olhos. O dano é tão profundo que chega a alterar estruturas cerebrais referentes ao desenvolvimento intelectual e à capacidade de assimilar emoções.

Em adultos, o que vemos são fendas profundas na capacidade de autopercepção e também da qualificação dos recursos internos que dispomos para lidar com a vida. Quem é tratado com indiferença tem uma baixa crença na capacidade de vencer obstáculos e de estabelecer relações saudáveis. Como reação, podem se tornar subservientes, violentos ou perseguir uma falsa autossuficiência – comportamentos que podem ser a chave de inúmeros quadros patológicos.

Silêncio matador
Temos uma dificuldade de lidar com o silêncio. Calar-se diante do outro é perturbador por natureza. Nunca nos acostumamos com esse vazio entre os corpos, que rapidamente será preenchido com sussurros, falas e gritos vindos das nossas vozes interiores.

No ambiente virtual, feito de corpos afetivamente precários, a indiferença se torna um gesto corriqueiro, legitimado e instrumentalizado pelos próprios meios. Excluir, deletar, banir, bloquear são simples botões. O que provocam, não. Matamos pessoas quando as condenamos à inacessibilidade. Muitas vezes, por vingancinhas bobas.

E, enquanto nos distanciamos das possibilidades de interação, também nos colocamos no isolamento. Distanciamo-nos do mundo plural e divergente, quando nos permitimos à partilha somente com aqueles que julgamos importantes – quem faz eco para nossas vaidades, realça nossa identidade ou oferece referências do que validamos como sucesso.

Quando o silêncio vem dessa morte metafórica da indiferença, a angústia é avassaladora. Não se encontram motivos, nem se sabe de fato se a morte já se consolidou. É a imagem da porta entreaberta: não sabemos o que poderá sair dali, quando isso ocorrerá e quais consequências terão.

Os mais nobres valores da dignidade não são experimentados quando somos bem tratados, mas quando sabemos reconhecer um semelhante no outro, apesar dos contrastes que apresenta diante daquilo que somos. Diferenciar-lhe e reconhece-lo é trazer, para si, a grandeza de ser humano.

Psique: Você não está blindado de sentir inveja, nem de ser invejado

Fonte: Metrópoles

inveja

Esse texto demorou dois meses para ficar pronto. Não queria construí-lo tomado pelos afetos. Ele é fruto da mais vil das emoções humanas: a inveja. As palavras brotam aqui por empatia, depois de me ver envolto numa vilania digna de novela. Por isso fui cauteloso – quis promover alguma reflexão, em vez de simplesmente expurgar o mal que me contaminava.

Invejar é querer destruir o bem que o outro alcançou, simplesmente por não ter capacidade de fazer o mesmo. Invejoso é quem, em vez de buscar frutificar algum talento, ambiciona o que ao outro pertence – seja para tomar para si, ou para destruir, impedindo que o outro usufrua das conquistas. Ou seja, tal atributo só se manifesta na incompetência, na incapacidade. É um estado de espírito pertinente ao perdedor.

Fica difícil acreditar que uma pessoa possa ser tão desgraçada, a ponto de não conseguir suportar a felicidade alheia: seja pelas realizações materiais ou emocionais, ou somente pela impressão de bem estar que o outro inspira desfrutar.

A fonte do mal
O veneno da inveja alcança diferentes gradações, que vão do desdém às ações práticas com o intuito de destruir o outro. Seja declarada ou velada, ela é o fel que envenena o mundo. Certamente, é a principal ferramenta do mal – a força personificada da destruição, da desarticulação, da imposição. Não é por acaso que a inveja de Lúcifer é tida como a gênese do mal, na mística judaico-cristã. Como os demais afetos, ela segue além do tempo, das culturas e da vontade dos homens.

E, mesmo sendo reconhecida por todo o seu poder nocivo, não conseguimos banir do nosso repertório. Há duas razões básicas para que seja assim. Primeiro, porque somos seres limitados – e inconformados com nossas limitações. Temos uma natureza descontente.

Isso nos inspira a querer completar, a qualquer custo, as lacunas que identificamos em nós mesmos. Banir o exemplo de sucesso é a estratégia que o invejoso encontra para minimizar próprio fracasso.

Querer o que não é meu
Além disso, somos conduzidos por uma competitividade latente, instintiva. E isso faz com que o bem alcançado pelo outro se transforme em algo desejável. A grama do vizinho só é mais verde porque, a uma certa distância, não percebemos as pragas que a infestam.

Fazemos da felicidade do outro uma inspiração para a nossa, sem sabermos ao certo o que cobiçamos. São tendências francamente humanas. Assim sendo, nem adianta assumir aquele discurso de “sou invejado, apesar de não invejar nada de ninguém”. É confortável acreditarmos numa superioridade, mas não se engane: você não está blindado de sentir inveja, nem de ser invejado.
É até mais interessante sermos honestos com o olhar que temos sobre as posses do outro. Se invejar é inevitável, nossa atenção deve se ater sobre a forma como lidaremos com tal sentimento – nisso, o caráter determinará a atitude, e separará aqueles que cultivam o mal e os que tentam neutralizá-lo.

Sal grosso emocional
Só não percamos da mente que, cada vez que a inveja nos atravessa, cegamo-nos diante daquilo que nos sobra, para elencar aquilo que nos faz falta. Isso é tacanho e injusto, consigo e com o outro. A inveja é o maior atraso que você pode atrair para sua vida – ela impede que o seu melhor possa fluir.

E, ao perceber o olhão gordo do outro sobre você, nada de se apavorar. Para neutralizá-la, uma receita mais barata que sal grosso: concentre seus talentos, aprimore-os, afaste o fator sorte da sua receita de sucesso – não deixe uma fresta na porta para que o mal invada. Ria, em vez de se deixar abater. Como ensinou Wilde, viver bem é a melhor vingança. E também o melhor antídoto para o veneno do outro.

Psique: Evitar emoções é comprar problemas

Crédito: Metrópoles

afetos

O beijo perdido, a hesitação diante do passo, a palavra calada, a mão que não alcança o almejado. Depois da consciência da morte, a segunda maior frustração humana é perceber a impossibilidade de realizar tudo de bom que a vida nos inspira a querer viver.

Dessa limitação derivam todas as emoções ruins de sentir: a raiva, o medo, a angústia, a melancolia, a inveja, a impaciência. Tudo aquilo que, se pudéssemos evitar, manteríamos fora do nosso repertório. No entanto, é justamente a partir dessa incapacidade, e das emoções por ela inspiradas, que descobrimos quem verdadeiramente somos.

Dar espaço a essas emoções se torna indesejável porque, em geral, elas costumam se apresentar da sua forma mais bruta e contundente: como afetos. Eles chegam audaciosos, sem avisar nem pedir licença, desafiam até mesmo a fronteira dos bons costumes e das convenções sociais. Não se contentam apenas com essa intromissão na psique, mas também atravessam o corpo, onde imprimem um novo compasso, uma nova fisiologia. Transtornam a ilusão de controle do “eu”, que fantasia de autodeterminação.

Resistir faz persistir
Quando tentamos barrar-lhes a entrada, os afetos mostram ainda mais o seu poder. Camuflam-se de outras emoções, aparentemente mais bem aceitas. Porém, com elas se irmanam, ganham força e, no momento mais inoportuno, denunciam o que tentamos evitar.

Às vezes, um simples gesto provocado pelo outro é o gatilho suficiente para fazer desaguar uma foz caudalosa. Surpreendemo-nos tanto com sua intensidade, a ponto de desconhecermos as atitudes cometidas enquanto estávamos sob seus domínios. “Nem parecia ser eu”, dizemos. E, de fato, a avaliação é correta: estar “afetado” é como estar possuído por um ente estranho, por um outro ser que desconheço.

Crescer é saber sentir
Amadurecer depende, entre outros fatores, da capacidade que temos de vivenciar as emoções de forma produtiva. Isso se dá quando conseguimos atribuir-lhes um significado, uma função para participarem do momento em questão. Por essa razão, refletir sobre as nossas experiências, e principalmente sobre como somos atingidos por elas, é importante para o desenvolvimento da consciência.

Inclusive, esse é o grande exercício do autoconhecimento: compreender como reagimos à manifestação de cada afeto é aprender sobre os valores latentes de nossa alma. É ela quem determinará como conseguimos explorar o que é agradável, e também sobre a forma como toleramos o que nos descontenta.

Emoções viram doenças
Quando a situação invoca afetos negativos, ou intensos demais à compreensão da consciência, a psique elabora uma espécie de mecanismo de defesa para que possamos suportar a experiência. As emoções relativas ao fato são fragmentadas e o que “transborda” é acondicionado no inconsciente. O problema é que, dessa forma dissociada, a memória do afeto assumirá um caráter nocivo.

Uma vez que o indivíduo se depare novamente com alguma situação que remeta à emoção original, ela tenderá a se expressar de forma tortuosa. Ao interferir, o afeto dialoga com o corpo e com a psique. Essa manifestação poderá se dar a partir de desconfortos emocionais, mas também de sintomas físicos. Essa é a base para a compreensão dos fenômenos psicossomáticos, a causa dos adoecimentos.

Aceitar para se libertar
Compreender esse mecanismo não nos faz imunes da ação dos afetos. Mas nos oferece uma fórmula para lidar melhor com eles: a aceitação. Encare aqueles desconfortáveis como uma visita indesejada que, por pior que seja, tem sempre uma função de estar ali. Escute o que ela tem a dizer, antes de querer manda-la embora, pois certamente será útil e benéfico, além de causar menores desgostos.

Jung ensina que nossas emoções são como deuses, capazes de abençoar ou amaldiçoar, a depender do nosso grau de reverência. Reconhecer nossas limitações, enquanto humanos, é como saber se portar diante de um deus. Só assim podemos ser dignos de graça.

nivas gallo