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Psique: Nascemos para morrer. Por que é tão difícil lidar com o fim?

Crédito: Metrópoles

A dark tunnel with light at the end.

A vida se dá na tensão entre dois opostos complementares: o nascer e o morrer. Nós, humanos, nos diferenciamos dos demais animais por termos consciência disso. Filosoficamente, ainda ensaiamos respostas precisas para os grandes mistérios indecifráveis (o chavão do “quem somos, de onde viemos, para onde vamos”). Mas, na prática, temos que lidar com essa realidade. Nascemos para morrer, essa é a nossa única certeza.

Vemos essa história se repetir desde que brotou essa consciência, isso nos é transmitido geração após geração. Fica difícil pensar que ainda não tenhamos aprendido a lidar com o encerramento das fases. E, de fato, não aprendemos. Sofremos um bocado para lidar com o desapego, somos bem inseguros ao olhar para frente.

Não é de hoje que se pensa sobre esse tema. Cerca de 500 anos antes de Cristo, o filósofo grego Heráclito de Éfeso já discutia a questão. Sua citação mais popular nos diz que ninguém pode se banhar duas vezes no mesmo rio. A cena jamais se repetiria, pois a pessoa já não seria a mesma; as águas originais também já teriam passado.

Vida é trânsito
Impermanência é o nome bonito que usaram para definir isso. Em diversas filosofias orientais, é tida como uma lei suprema. Entretanto, na situação contemporânea, evidencia um novo paradoxo do tempo. Somos cobrados a lidar com a celeridade das coisas, que se superam a cada momento. Descartamos diversas coisas com muita facilidade. Mas, quando há afeto envolvido, não conseguimos abandonar o passado em nome do novo.

Mera tolice. O futuro virá, independentemente da resistência. O passado não se atualizará, mesmo que eu busque cultuar emoções que o evoquem. Vida é trânsito. O percurso é o que interessa, pois ele representa o agora, a única realidade que podemos deter.

E esse será o único determinismo aceito, caso queiramos ter bem-estar. Quando nos fixamos numa situação estanque, querendo perpetuá-la a qualquer custo, assumimos o risco do empobrecimento. Quando restringimos nosso horizonte, ao renegar o novo, transformamos nossa vida em uma coisa menor, menos interessante.

Transformações exigem perdas
Tudo na natureza se expressa por um ciclo, com começo, meio e fim. A energia de renovação, que nos revitaliza, só pode se manifestar quando se assume a contrapartida da perda. Se não cedemos, não podemos suprir carências.

Associar a substituição do velho pelo novo aponta para uma fantasia de desamparo: não conseguimos acreditar que o futuro poderá suprir nossas necessidades. Ou que teremos recursos suficientes para lidar com os desafios que lá se apresentarão.

Irmanamo-nos com os problemas, como quem divide a casa com alguém inconveniente. Reclamamos do que temos, mas não empreendemos esforços para mudar nosso universo. E ainda desacreditamos os acenos da transformação.

Da mesma forma, tentar perpetuar um momento ou relação é limitar a nossa capacidade de transformação. O que me contempla hoje poderá ser insuficiente logo em seguida. Por isso, fazer compromissos é diferente de fazer pactos. Não podemos levar tão a sério as promessas eternas, uma vez que o eterno só existe na nossa fantasia. Em suma, estando você diante da maior das graças ou da mais terrível aflição, saiba: isso também vai passar.

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Outras Ondas* – Reflexões sobre a morte

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A próxima terça-feira será previsível para muitos: um dia de silêncio e orações, com a chuva miúda batendo na janela. Ano após ano, esta é a aura que envolve o dia de Finados, feriado cristão de préstimos aos mortos. Há quem prefira homenageá-los com velas e flores no cemitério. Outros oferecem somente preces e lembranças. Em comum, todos marcam a data com o recolhimento. Talvez pela dificuldade que temos em lidar com o tema: tão questionador à própria existência, tão delator de nossas vulnerabilidades.

O 2 de novembro foi designado como o dia de reverenciá-los no século 13, pela liderança da Igreja Católica, em virtude do Dia de Todos os Santos, comemorado na véspera. Primeiro se celebra aqueles que ascenderam aos céus pelos feitos na Terra e, em seguida, roga-se para que intercedam pelas almas dos pecadores.

Ao menos uma vez por ano, somos obrigados a encarar o poder absoluto da morte. Julgada como cruel, indolente e impiedosa, ela nos surge com sua face obscura e temida. Revela como certos valores não resistem à degradação imposta pelo tempo. Biologicamente, morrer é a simples cessão dos elementos vitais do corpo. Subjetivamente, é a exposição e a avaliação dos legados construídos e posturas adotadas em vida. O desenlace não é difícil. Complicado é encarar o fim e saber que, a partir de então, não há mais como mudar a imagem moldada dia após dia. Ou pior: é o medo de ser esquecido, mesmo diante de tantos esforços. Enxergamos como declínio da vida, e não como uma conclusão. Refletir sobre isso é a ocupação das filosofias e orientações religiosas. Platão já designava o conhecimento filosófico como um ensaio para a morte.

Temos nela a única certeza humana, e de essa consciência nos diferencia dos outros animais. Mesmo assim, não conseguimos superá-los com a racionalidade. Enquanto os bichos vivem o fim de forma natural, resistimos a aceitar essa finitude e tentamos driblá-la com a medicina – ignorando, até mesmo, os limites da dignidade quando submetemos entes mais queridos às massacrantes máquinas mantenedoras da vida. Relutamos a aprender a lidar com o inevitável. A dor de morrer é pequena. Grande é a dor imposta pelo desapego dos que ficam, pela adaptação necessária para se manterem neste mundo. O temor é tamanho que sequer falamos sobre o assunto. Falar em morte é chamar a morte, mau agouro.

Na cultura oriental, o culto corriqueiro aos ancestrais é uma forma equilibrada de lidar com essa dor. Nas casas, é comum encontrar um pequeno altar com fotografias e objetos de antepassados, acompanhados por velas, incensos e frutas. No respeito demonstrado com o ritual, querem evidenciar a crença na perpetuidade do espírito: o ente deixa o corpo, mas não deixa o seio familiar. No México também encontramos o dia de Finados como momento de comemoração. Túmulos são enfeitados com cores em excesso. Comidas se espalham entre sepulturas e fazem fartas as mesas das famílias. Crianças disputam guloseimas em formato de lápides e crânios. Um choque para todos nós, brasileiros, que normalmente fazemos questão de manter uma boa distância dos nossos mortos.

Também vem do México uma curiosa crença. Um dos símbolos do catolicismo popular do país é o culto à Santa Muerte. Lá, em vez de algoz, a morte é tida como uma intercessora, capaz de realizar pedidos, digna de veneração. A imagem é tétrica: uma mescla de esqueleto e Virgem Maria, com uma foice em uma das mãos e uma balança na outra. A ela são oferecidos flores, velas, bebidas alcoólicas e fumo. Apesar de reprimida pela Igreja Católica, a adoração desperta grandes festas e ocupa capelas espalhadas por diferentes cidades.

Por aqui, temos no espiritismo e nas religiões de matriz africana manifestações de um diálogo mais franco com a morte. No primeiro, pela crença da perpetuidade do espírito, comprovada pela comunicação deles com o mundo dos vivos. No linguajar dos espíritas, o “desencarne” não representa o fim, e sim uma interpretação de liberdade do corpo físico. No candomblé, os antepassados são reverenciados pelos adeptos na cerimônia do axexê, que só se completa 21 anos depois da data do óbito. Na religião, a grande senhora pode ser chamada de Iku ou Nanã Buruku – é a grande mãe terra, que recolhe os filhos ao ventre de onde foram gerados.

Entre os cristãos, é preciso lembrar que a missão de Jesus só se completou ao privar-se a vida, como qualquer homem. E foi nesse momento em que ele duvidou e sentiu medo: mas nem a santidade que lhe revestia foi capaz de poupá-lo de seu martírio.

Quando resistimos à ideia da morte não percebemos que ela é fundamental à existência. E é justamente essa a mensagem que ela nos ensina a partir do arcano número 13 do tarot. Quando esta carta nos chega, é sinal de que devemos provocar (ou aceitar) as mudanças propostas pela vida, mesmo que, para isso, seja preciso ceifar certezas vãs – certamente elas não serão mais úteis para nossa trajetória. James Hillman, psicólogo e analista junguiano, enxerga no sono uma contrapartida simbólica ao morrer. A cada fechar de olhos para dormir, vivemos o crepúsculo de acontecimentos e a sensação de solidão de quem vislumbra o desfecho da vida. Também nos deparamos com esse símbolo a cada decisão, a cada reflexão, em todo momento que precisamos abrir mão de uma realidade em para conquistar algo novo. E só assim promovemos a renovação necessária. Morrer é aprender o valor das transformações.

Outras Ondas* – Uma vida além da vida


O cinema nacional quebrou, recentemente, mais um recorde. O filme Nosso Lar, inspirado na obra homônima de Chico Xavier, ultrapassou a marca de um milhão de espectadores nos cinco primeiros dias de exibição. Todos interessados em conhecer uma versão do que seria a vida após a morte, de acordo com a crença espírita. Para construir tal realidade, o roteirista e diretor Wagner de Assis não poupou recursos nem tecnologia: a obra também tem o marco de ser a produção mais cara da história nas películas brasileiras, com orçamento estimado em R$ 20 milhões. É o Avatar à brasileira.

Mas certamente não é a tecnologia o que mais atrai tanta gente desejosa de conhecer o Nosso Lar. Nem também a convicção no espiritismo: três de cinco amigos que assistiram o filme seguem outra orientação religiosa. Na verdade, o que os conduziu à escolha foi a curiosidade sobre o que estaria além da morte – uma das questões existenciais do homem.

O Brasil, país de maior adesão ao kardecismo, também é rei na miscigenação das crenças. Propicia, por exemplo, que um católico tome um passe vez por outra, sem que isso traga um conflito sobre a própria fé. Chico escreveu a obra em 1944 e, até hoje, ela é a mais vendida entre seus livros. Nela, a continuidade do espírito é marcada por situações que conhecemos bem: trabalho, filas nos meios de transporte, alimento para o corpo (astral, no caso), regras, disciplina, modernos centros de comunicação, doenças e tratamentos médicos… Algo bem distante da plácida e romântica ideia de vida eterna!

É essa a realidade complexa que o médico André Luiz encontra ao adentrar na cidade espiritual. Relatos que, na crença, ele transmitiu a Chico por meio da psicografia – a escrita mediúnica, prática dos espíritas. A continuidade do espírito após a morte do corpo é a base para todas as religiões. Nelas, encontramos respostas para nossas inquietações mais profundas, damos sentido à vida – e assim o é desde a formação das civilizações. Para o psiquiatra suíço C.G. Jung, fundador da Psicologia Analítica, a crença nos espíritos é reforçada sempre que há uma distorção dos valores humanos. “A percepção de uma realidade espiritual arranca-o constantemente dos laços que o prendem a um mundo puramente sensível e material, e lhe incute a certeza de uma realidade espiritual cujas leis ele deve observar tão cuidadosamente e com tanto temor quanto as leis da natureza física circundante”, ensina em A natureza da psique (Ed. Vozes).

Partindo dessa óptica, a corrida aos cinemas ultrapassa a curiosidade. Ela evidencia a eterna busca, a necessidade de resgate da espiritualidade – independentemente de conceitos religiosos. Nosso Lar e as demais obras que falam da vida além-túmulo não nos levam a refletir sobre a morte. É justamente o contrário: buscamos, com elas, uma justificativa para viver. Algo que nos conforte e valide os esforços cotidianos de sermos pessoas melhores.

* A coluna Outras Ondas é publicada aos domingos no blog da Revista do Correio: www.correiobraziliense.com.br

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