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Foco: O que esperar de 2012

Escrevi um curto artigo para a edição de fevereiro da revista Foco sobre a busca das pessoas por previsões. Na verdade, um contraponto sobre o uso dos oráculos com essa finalidade. Reproduzo o conteúdo abaixo. 

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O homem se difere dos animais por ter consciência de si mesmo, do futuro e da morte. Por esse motivo, sempre buscou formas de compreender o mundo que os envolve. Uma delas é a crença no mágico, no invisível. A partir de sonhos, deuses e oráculos, o homem tenta interpretar os desígnios desse mundo transcendente. Essa é a base das filosofias e religiões.

A preocupação com o futuro fica mais evidente a cada início de ano. É um movimento natural: o início de um novo ciclo traz consigo a crença da renovação e de novos desafios. E todos querem estar preparados para aproveitar as melhores oportunidades, mantendo a precaução diante das adversidades. Tarot, I Ching e búzios, entre outros oráculos, podem oferecer um bom subsídio para isso. Mas é necessário ter certas precauções.

A função maior dessas práticas não é de oferecer certezas, e sim de propor novos questionamentos sobre o tema que se analisa. Já era assim na antiguidade. Quando um grego recorria ao Delfos, ele buscava novos subsídios para refletir sobre a ação dos deuses (afetos) sobre si. O oráculo é capaz de despejar a luz da consciência sobre os pontos cegos na nossa visão. E, com uma visão mais clara da realidade, estamos mais aptos a construir o futuro que tanto desejamos.

Assim sendo, creia nas promessas e advertências que os oráculos oferecem. Mas acredite duvidando: de si, das circunstâncias. A interpretação deve ser simbólica e não literal. Não se apegue a determinismos, a certezas. Nenhuma realidade é estanque, pois nossa alma não é estanque. Tudo pode se transformar, a depender da nossa vontade, pensamentos e ações. O oráculo é eficiente se põe em xeque nossas certezas. E quando, a partir disso, nos tornamos pessoas mais conscientes e fieis ao nosso papel no mundo.

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Clique aqui para ler o artigo no site da revista.

 

 

O orixá de 2012 – por iyá Stella Azevedo Ode Kayodê

Esse blog é autoral. Mas, por concordar com os ensinamentos de iyá Stella de Oxóssi, iyalorixá do ilustre Ile Ase Opo Afonjá, dedici reproduzir o artigo produzido por ela para o jornal A Tarde, de Salvador (BA). No começo do ano a polêmica é sempre a mesma: qual orixá regente para o período que se inicia? 

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Foto: Margarida Neide /Ag. A TARDE/ 08.11.2011

Este é um artigo que possui objetivo esclarecedor. Tentarei tornar compreensível um assunto que surge todo princípio de ano. A imprensa faz reportagens e as pessoas indagam uma das outras ou perguntam a si mesmas sobre o orixá que influenciará o novo ano que surge. Fazem isso na tentativa de adivinhar o que é preciso ser DIVINADO.

Adivinhar é fazer conjecturas sobre um tema usando a intuição, o que todo ser humano pode fazer. Divinar, todavia, é entrar em comunicação com o sagrado, através de rituais guiados por sacerdotes. É claro que todo ser vivo, por possuir uma parcela divina, é capaz de se conectar com os deuses. Mas a utilização de oráculos, os quais fornecem informações mais precisas sobre o destino da comunidade, requer uma preparação especial e um estilo de vida que propicia à intuição, inerente a todos, apresentar-se de maneira muita mais clara. A intuição se transforma aqui em revelação: quando os véus que encobrem os mistérios são retirados pelos deuses, a fim de que nossa jornada aconteça de uma maneira orientada e, assim, possamos cumprir a tarefa que nos foi legada com o mínimo de percalços possível, o que torna a vida bem mais leve.

Os leitores acostumados com os artigos que escrevo poderão estranhar a formalidade deste texto. É que “há tempo para tudo”: para contar anedotas, falar poesias, refletir sobre a vida… Esse tema pede seriedade! Faço isso porque creio ser a imprensa o meio ideal para esclarecer assuntos, que só não são melhor comentados por falta de oportunidade e conhecimento. Tendo agora essa oportunidade que me é dada pelo jornal A TARDE não quero desperdiçá-la. Mesmo tendo eu a consciência de que nada se modifica de um dia para o outro, aproveitarei o momento para tentar fazer com que a população melhor compreenda as respostas do oráculo trazido pelos africanos para o Brasil, esperando que as sementes aqui jogadas possam um dia florescer e dar bons frutos.

A pergunta correta não é qual o orixá que rege o ano, e sim qual o orixá que rege o ano para aquelas pessoas que cultuam estas divindades e estão vinculadas à comunidade em que o Jogo de Búzios foi utilizado. Se isso não for bem esclarecido e, consequentemente, bem compreendido, parece que todos os sacerdotes erram em suas respostas, uma vez que uma Iyalorixá diz que o orixá do ano é Iyemanjá, enquanto outra diz que é Oxum, ou um Babalorixá diz que é Oxossi. Mesmo correndo o risco de o texto ficar enfadonho, insistirei em alguns pontos, a fim de elucidá-los melhor. No nosso Terreiro, o Ilê Axé Opo Afonjá, o regente do ano 2012 é Xangô. A referida divindade, que se revelou no Jogo feito por mim, não está comandando o mundo inteiro, nem mesmo o Brasil ou a Bahia. Ela é o guia das pessoas que, de uma maneira ou outra (mais profunda – como é o caso dos iniciados; ou mais superficial – os devotos que freqüentam a “Casa”), estão vinculadas a mim enquanto Iyalorixá, ou ao Terreiro em questão.

O leitor, diante dessa explicação, poderá ficar confuso e sentir necessidade de perguntar: “E eu, que não cultuo orixá e não tenho relação com o Candomblé, não serei orientado nem protegido por nenhuma divindade?”. A resposta é: Claro que sim! Por aquela que você cultua ou acredita. Um católico, ou um protestante, será guiado pelos ensinamentos de Jesus; um budista, pelas sábias orientações de Buda… Outra pergunta ainda poderá surgir: “E quanto às pessoas que não são religiosas, elas ficarão a toa?”. Não, é claro que não. Essas serão guiadas e orientadas pela natureza, que é a presença concreta do Deus abstrato. Seus instintos, protegidos por suas cabeças e corações, conduzirão suas vidas de modo que seus passos sigam sempre na direção correta.

Que Xangô – divindade da eloqüência, da estratégia, do fogo que produz o movimento necessário a todo tipo de prosperidade – possa receber, de meus filhos espirituais, cultos suficientes para que fortalecido possa torná-los cada vez mais fortes para enfrentar as intempéries que todo ano traz consigo. Obrigado Ano Velho pelas experiências passadas para Ano Novo.

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Clique aqui para ler o conteúdo no site do jornal A Tarde.

CBN: Tarot Analítico e oráculos para o fim de ano

No dia 14 de dezembro de 2011, concedi uma entrevista ao repórter Brunno Melo, da Rádio CBN, sobre a eficácia de oráculos para o planejamento do ano novo. O conteúdo foi veiculado no dia 16 de dezembro, com reapresentações na programação da rádio. Reproduzo o link para o material logo abaixo. 

 

CBN: Tarot Analítico e oraculos para o fim de ano by joaorafatorres

Outras Ondas* – Oráculos e a força do acaso


O fim do ano se aproxima e traz consigo uma onda de curiosidade: quais serão os desafios do novo ciclo que se inicia? Muitos encontram a resposta nos oráculos, como o tarot, a astrologia e o jogo-de-búzios. Esse é o período de maior procura por esse tipo de serviço. Quem busca orientação quer criar um planejamento eficiente que permita aproveitar melhor as boas oportunidades – e obviamente evitar aquilo que pode ser um complicador no caminho.
O fascínio pelos oráculos é fruto da consciência do homem de que terá um futuro. Esse é um dos atributos que nos diferencia dos demais seres, mas que, sinceramente, não sei dizer se é uma dádiva ou um castigo. No entanto, muitas vezes esquecemos que o que vem pela frente é resultado da vida que vivemos hoje. Ignoramos que, superando os limites atuais, é possível concretizar o futuro que se deseja.

O uso de oráculos é uma prática ancestral, com data indefinida. Acredita-se que surgiram a partir da observação de fenômenos naturais e da correlação dos mesmos com acontecimentos cotidianos. É seguro dizer que é uma prática comum à todas as culturas, apesar das transformações sofridas pelo período da história em que se encontram. Sempre foram usados como instrumentos de preleção do futuro e, em geral, têm relação na crença do diálogo do homem com forças invisíveis – sendo elas chamadas de deuses, demônios, espíritos ou, como interpreto, elementos do inconsciente.

Jung foi um grande estudioso dos oráculos, especialmente do I Ching – uma das bases da sabedoria do pensamento chinês. Para ele, não há nada de sobrenatural no momento em que tiramos uma carta de tarot, por exemplo, e ela nos indica exatamente o momento em que estamos vivendo. Isso seria resultado de um movimento psíquico, inerente a todos. Essa dinâmica é capaz de promover coincidências significativas, que o psiquiatra chamou de sincronicidade. Esse é um dos mais temas mais polêmicos que abrange a Psicologia Analítica. Gerou críticas ferrenhas a Jung por parte dos colegas mais ortodoxos, que confundiam a teoria como uma apologia ao misticismo.

Até mesmo quem nunca se submeteu a uma consulta a oráculos sabe descrever a sensação de fascinação despertada por um movimento sincronístico. Afinal, quem nunca presenciou uma “coincidência” capaz de alterar o curso dos acontecimentos – um livro cai da estante e, ao abrirmos, nos deparamos com uma frase capaz de sintetizar e esclarecer a dúvida do momento; pensamos em um amigo que não vemos há muito e topamos com ele na fila do supermercado…

Certa vez, vivi uma situação que me marcou bastante. Saí de casa e esqueci o celular. Fui a uma livraria e lá conheci um rapaz e, numa rápida conversa, chegamos à conclusão que estávamos vivendo momentos profissionais bastante parecidos. Trocamos emails para trocar materiais. Ao chegar em casa, encontrei algumas ligações perdidas de uma amiga. Retornei e ela contou que tinha ligado para me convidar para um jantar, pois queria me apresentar um amigo. Ao descrevê-lo, percebi que era o mesmo rapaz que eu tinha acabado de conhecer. Ou seja, tínhamos de nos conhecer. Conseguimos desenvolver um bom trabalho em comum e somos amigos até hoje.

Nem toda coincidência pode ser chamada de sincronicidade. Ela surge quando dois ou mais eventos aparentemente sem relação desembocam num momento ou cena única, capaz de trazer um forte significado para um (ou mais) dos personagens envolvidos. Ou seja, é uma coincidência capaz de alterar o sentido das circunstâncias. Jung dizia que é impossível produzir sincronicidades deliberadamente, mas admitia que os oráculos eram a principal forma de constatá-la. Nosso inconsciente se expressa a partir de símbolos, assim como os oráculos. Por essa similaridade, as cartas do tarot, os hexagramas do I Ching e demais práticas oraculares agem como ferramentas de expressão da psique. São chaves para o inconsciente.

Um oráculo é uma tentativa de leitura do simbolismo presente nos arquétipos – padrões resultantes de todas as experiências humanas, partilhadas por todos e capazes de nortear nossos comportamentos, pensamentos e emoções. A partir da leitura do oráculo, temos um indicativo de quais são os padrões mais latentes ao consulente naquele dado momento, e o que eles acarretam positiva e negativamente. Dessa forma, a consulta funciona como um ampliador da consciência: temos um maior conhecimento das dificuldades enfrentadas, despertamos a atenção para as tendências de desfechos, recebemos alertas sobre a nossa contribuição para a manutenção do problema.

Oráculos falam sobre o futuro? Sim, falam, da mesma forma como um sonho também pode antever acontecimentos. Isso funciona porque os referencias de tempo e espaço não fazem parte do inconsciente. Da mesma forma que conseguimos voltar décadas do calendário num piscar de olhos, os oráculos podem projetar a consciência para acontecimentos ainda aquilo que sequer temos noção que possa vir a acontecer. O que vai indicar a certeza dos fatos é a necessidade e a carga afetiva relativa ao tema abordado. O oráculo não é um instrumento para nutrir a curiosidade, e sim para promover o amadurecimento. Antes de debruçar sobre o que quer saber, deve-se debruçar sobre o que precisa saber.

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