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Psique: Toda prepotência encobre uma impotência. O mesmo vale para o contrário

Crédito: Metrópoles/iStock

prepotencia

Quando somos pequenos, achamos que a vida é difícil porque não temos nossos desejos realizados. E a culpa é da fada madrinha, ou do gênio da lâmpada, que se negam a aparecer. A adolescência chega e é a tirania dos pais que desperta a nossa frustração. Se não fossem eles, imaginamos, seríamos muito mais realizados.

Chegamos à vida adulta, e o problema novamente se transfere. Ao chefe que não nos reconhece e recompensa. À pessoa amada, que não se dedica o suficiente ou não corresponde o que esperamos. Os cabelos começam a embranquecer e é a vez do Estado e da sociedade pesarem na balança. Logo depois vem Deus e sua injustiça. O corpo falha, limita nossa capacidade. E morremos frustrados pela vida que “o outro” não nos permitiu viver.

Essa é a história de alguém que não busca se conhecer. Ou, pior: de um indivíduo que insiste em se enxergar passivo diante da própria existência. Um ser que, em vez de acolher a própria falha, acaba por transferi-la a algo que acredita ser externo, fora de si. Ou seja: alguém que não se percebe como parte integrante do mundo.

O que nos torna capazes

Esse pensamento foge do “querer é poder”, lema máximo da autoajuda. Nem sempre o querer é suficiente. Nem sempre o poder é permitido. Não somos tão autossuficientes assim. A realidade é muito complexa para que consigamos detê-la e conduzi-la. Mas não é por isso que devemos permanecer inertes, à espera da resolução automática das complicações que surgem no caminho.

O sofrimento nos chega quando experimentamos algum desses extremos. Se nos enxergamos prepotentes, acreditamos que estamos habilitados para decidir-agir-funcionar em qualquer situação, e que o resultado desejado depende apenas de esforço e dedicação. É mentira.

Da mesma forma, o impotente é aquele que se vê insuficiente para decidir-agir-funcionar diante de qualquer adversidade. Menospreza a própria presença, pois se vê pequeno demais, fraco demais. Nessa visão, o outro é alguém mais capaz. Quando este me serve, dele dependo. Quando me nega, dele me ressinto. Outra mentira.

O meu tamanho

Não precisamos ser demais nem de menos. Temos que encontrar a medida exata das nossas faculdades, e essa métrica não está escrita aqui – nem em lugar nenhum. Na verdade, aprendemos sobre nossos limites e possibilidades em cada passo da vida, quando tentamos escutar como cada momento repercute em nossa alma.

E, para balizar esse instrumento, não devemos ser óbvios (a tendência reducionista do ego) e apegarmo-nos apenas àquilo que faz bem, encoraja e energiza. Carecemos igualmente do incômodo, daquilo que deprime e nos coloca diante da incompletude. É esse repertório de excessos e faltas que nos define enquanto humanos.

Vivenciar a impotência ou a prepotência é algo inevitável. Fixar-se em alguma delas é que é o risco. Até porque surgem como faces da mesma moeda. O esforço para ser ultra compensa apenas algo em que nos sentimos infra, e vice-versa. E, enquanto isso, inúmeras outras possibilidades de realização vão sendo negligenciadas.

Psique: “Será que eu preciso de análise?”, questões que levam pessoas ao divã

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1. “Lutei muito para chegar aqui, mas acho que não mereço desfrutar desse bom momento, uma vez que meus parentes não alcançaram o mesmo êxito.”
Moça, você precisa de análise. Como você disse, não foi sorte ou desonestidade que levaram você ao êxito – e sim o seu próprio esforço. Não vou questionar o fracasso da sua família (essa questão fica para eles), mas você não precisa se culpar pelo sucesso, e sim recompensar-se com ele.

2. “Quando vi, já tinha comido a geladeira toda, bebido o que tinha em casa. Mas não estou fazendo mal a ninguém e posso parar assim que quiser.”
Moço, você precisa de análise. Hábitos compulsivos e autodestrutivos falam de uma dificuldade para encontrar algum sentido para a vida. Não tente normalizar aquilo que já foge do seu controle.

3. “Não é possível que não reconheçam meu talento, enquanto promovem aquela pessoa estúpida.”
Moça, você precisa de análise. Quem precisa reconhecer o tamanho do seu talento é você mesma. De duas, uma: ou você não é tão eficaz como imagina, ou não está valorando seu potencial e se mantém atrelada a um lugar que não lhe respeita. Vamos refletir um pouco sobre uma decisão a tomar, em vez de apenas reclamar?

4. “Cada vez que fulano posta uma foto, fico mal. Queria trocar com vida com ele, nem que fosse por um dia. Por aqui tudo é meio sem graça”.
Talvez fulano dissimule melhor os problemas que enfrenta. Estabelecer redes sociais como parâmetro de bem estar é uma ilusão: os filtros farão sempre a vida do outro mais interessante. Será que você deve levar isso tão a sério? Qual a falta que gera seu sofrimento hoje? Moço, vamos agendar um horário?

5. “Vivo para meus filhos, com prazer. Não gosto nem de pensar no dia em que eles saírem de casa.”
Moça, você precisa de análise. Anular-se tem origens em uma baixa autoestima, e principalmente numa expectativa projetada sobre o outro. Uma hora, seus filhos deixarão de depender de você. Ignorar isso é abrir uma porta para o adoecimento – físico ou psíquico, muitas vezes usado para que eles se sensibilizem e devolvam os cuidados que você os empenhou. Melhor prevenir.

6. “Quero procurar um feiticeiro para que minha namorada não deseje outro homem.”
Moço, você precisa de análise. Nada contra o feiticeiro, mas achar que é normal querer anular a vontade de outra pessoa, a seu bel prazer, parece não ser uma boa. Não sei se é uma questão de autoestima baixa (afinal, vovó já dizia “quem não me quer não me merece”), ou de egoísmo exacerbado (quem é você para achar que merece controlar alguém?). Ou das duas coisas juntas.

7. “Tenho dedo podre, não arrumo ninguém que preste, não tenho sorte no amor”.
Será que você quer mesmo se relacionar, e lidar com todas as renúncias que isso gerará? Seu grau de tolerância para o outro está satisfatório? Você está disposto a mudar, a acessar os seus lados mais contraditórios? A desarmar-se da competição, a compartilhar, a confiar? Acho que você já sabe, né?

8. “Análise é uma besteira, pagar para alguém me ouvir e sequer dizer o que devo fazer? Já tenho amigos. Ninguém é capaz de determinar o que é melhor para minha vida.”
Concordo com esse final, moça. Mas, sim, você precisa de análise. Seu discurso soa um tanto rancoroso, parece que perdeu a crença no outro. A análise vai além de uma conversa: nela, exercitamos a escuta e a reflexão. Por exemplo, percebemos quantas oportunidades desperdiçamos, ou quanto insistimos em erros, além de entendermos sobre a força do inconsciente no nosso cotidiano.

9. “Sou analista e não preciso mais disso. Leio muito e, com isso, consigo entender plenamente dos meus problemas, controlar as situações.”
Jung nos diz que a teoria é fundamental, mas que ela não deve matar a sensibilidade. Pelos olhos do analista, entramos em contato com personagens internos, até então desconhecidos. Este outro olhar nos ajuda, inclusive, a escaparmos da inflação: a fantasia de que estamos acima do bem e do mal. Moço, talvez você seja dos que mais precisam.

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