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Psique: Amar não deveria ser um problema. Mas esse afeto é tão complexo…

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Esta é a centésima edição de Psique. E, para comemorar, resolvi falar de amor. Dele derivam os grandes dilemas humanos e também partem as grandes soluções — aquilo capaz de transformar nossa realidade.

Amar não deveria ser um problema, mas esse é um afeto tão complexo, e tão subjetivo, que acabamos por confundi-lo com diversas outras coisas. E dessa confusão derivam os grandes sofrimentos humanos. Lido com eles diariamente em meu consultório.

Pessoas confundem amor com possessividade. Com a anulação em nome do outro. Com a indisposição para enfrentar uma nova realidade. Com o comodismo. Com a necessidade de reviver as marcas do passado. Com o medo de magoar. Entre outros incontáveis equívocos.

Tudo isso ocorre porque nem sempre conhecemos de fato o amor. Somente imaginamos, tomando por base a referência de sua antítese: o desamor. Chamamos de amor o contrário daquilo que queremos evitar: o abandono, a incompreensão, a insegurança, a incompletude.

Fazemos isso sem compreender que, de fato, tudo que tememos já está em nós, faz parte da nossa condição humana.

Tudo isso é atenuado de alguma forma, interpretamos como uma atitude amorosa. Nem sempre é. São incontáveis as razões que levam duas ou mais pessoas a se aproximarem. Vão da confluência de propósitos aos interesses mais escusos.

O amor real se define pelo compromisso desinteressado e generoso, o que é profundo e difícil de ser exercido. Nas palavras de Jung:

“O amor custa caro e nunca deveríamos tentar torná-lo barato. Nossas más qualidades, nosso egoísmo, nossa covardia, nossa esperteza mundana, nossa ambição, tudo isso quer persuadir-nos a não levar a sério o amor. Mas o amor só nos recompensará se o levarmos a sério”.

Quem consegue chegar a esse lugar, mesmo que por um instante e uma vez na vida, saberá diferenciar com mais tranquilidade a natureza das relações. Saberá que algo pode valer a pena, mas não necessariamente terá de chamar de amor. Ganha-se a lealdade consigo mesmo.

 

Da mesma forma, aprende-se que amor é para sempre. Ele se transforma, converte-se numa outra qualidade de amor – mas nunca deixará de sê-lo como é. Quando é verdadeiro, o amor é gregário, e não competitivo; é compreensivo, e não inseguro.

Amar é uma forma de contemplarmos o que há de mais profundo em nossa alma. Coisas que vão além das heranças familiares, ou daquilo que o mundo julga como importante. Quando amamos, acessamos o sagrado em nós.

Por esse motivo, envolvemos os seres que amamos com tanta importância. A eles, buscamos oferecer o melhor lugar para que se sentem. Acolhemos da melhor forma, para que ali permaneçam. Sabemos que, por meio deles, podemos experimentar, mesmo que por instantes, a impressão de sermos inteiros.

Psique: Existe limite para o perdão?

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Quantas chances uma pessoa merece? Quando um erro pode ser compreendido, quando é inadmissível? Ceder é uma atitude louvável ou uma idiotice? Limites frágeis definem valores tão subjetivos.

Nós, terapeutas, somos muitas vezes acusados de complacência. Defendemos os errados, sob o argumento da inconsciência de seus atos. Já ouvi comentários até que soam como insultos: “é fácil falar, queria ver se fosse contigo” – o mais comum.

Até certo ponto, é verdade. Não somos (ou deveríamos ser, ao menos) tão inimigos assim do erro. Mas a defesa que fazemos não é por sermos bons ou tolos. E, sim, por compreendermos que qualquer ato está ligado a uma complexa rede de acontecimentos. E que, por trás de cada gesto, há uma mensagem que tenta ser transmitida. Mesmo que da forma mais torpe.

Assim como ninguém nasce para ser um fracasso, não há nenhuma atitude planejada para dar errado. O sucesso, no entanto, derivará de uma série de fatores. Muitos deles serão incontroláveis, até ao sujeito mais minucioso.

Quando o outro comete uma falha, ele nos frustra duplamente. Não só por interromper nossos planos, mas principalmente por nos lembrar que lidamos intimamente com a possibilidade do erro. Isso justifica a dificuldade dos perfeccionistas em abonar o erro do outro.

Ao darmos outra chance a quem erra, fazemos mais que uma simples aposta no acerto. É um voto de confiança, uma forma de mostrar solidariedade à condição falível que nos atravessa a todos. É também uma atitude amorosa: capacitar o outro a refletir sobre o ocorrido, para que possa revisar atitudes e corrigir posturas.

Há um limite razoável para isso? Obviamente. Não se trata de um chamado a cegar-se diante das falhas. É necessário discernir entre uma incapacidade legítima e uma intenção maligna, pois, é fato, existem aqueles que estão impregnados por mal maior que a minha capacidade de detê-lo.

A estes, também cabe alguma misericórdia, novas chances para que possam interagir com o mundo de forma menos nociva. Mas, pergunte-se: serei eu a pessoa mais indicada e capacitada para auxilia-lo, ou é o momento de me preservar?

Uma coisa é certa: a outra chance, seja ela para quem ou o que for, só é válida quando é uma decisão madura, genuína. E não quando aparece como uma espécie de crédito para validar meus futuros erros. Muitos negociam indulgências com esses trunfos, e impedem que as relações em questão sejam maduras, honestas e profundas.

Mas estou certo de que esgotamos as possibilidades bem antes do nosso verdadeiro limite. Desistimos fácil do outro, não só por não crermos na sua capacidade de melhorar. Mas por saber que, para que o erro do outro seja superado, exige-se também uma reforma naquilo que somos. A vida não é somente uma disputa por razão.

Psique: Amigo de verdade suporta sua felicidade, seja ela qual for

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Tendemos a querer adaptar o outro àquilo que somos. Não necessariamente por querer-lhes o bem, mas para que a nossa vida fique mais fácil. A felicidade é um conceito subjetivo. Cada um concebe as próprias imagens de paraíso. Impor as nossas aos demais é um erro.

Fazemos escolhas que podem representar motivo de preocupação, ou desgosto, para quem nos ama. Principalmente por forçarem a assumir uma nova perspectiva. Isso incomoda porque, numa dessas, poderá despontar a percepção de estarem equivocados. E isso é frustrante.

Daí vem sempre aquele argumento da defesa, do prevenir o outro dos males que pode atrair para si. Falamos isso como se o erro não fosse edificante. Ou como se tivéssemos uma visão privilegiada da realidade, capaz de antever fracassos. E nós, também não fracassamos?

Suportar a felicidade do outro, seja ela qual for, é o sinal da verdadeira amizade, a prova do amor fraterno. Com quem se relaciona, o que consome, o que decide fazer, qual a hora certa de entrar ou sair de uma situação? Tudo isso é de responsabilidade de cada um. Cada escolha, boa ou ruim, só compete a quem poderá sustenta-la.

Vender ao outro as nossas verdades é uma atitude tirana. Basta inverter os papeis nesse balcão: como você reage quando a paixão chega (por algo ou por alguém), e vem aquele amigo aconselhar sobre os riscos desse empreendimento? Isso é suficiente para deter o sentimento?

Por mais que algo seja notoriamente negativo, tal situação foi a forma encontrada pelo outro para algum aprendizado. Não é que devemos ser negligentes: advertir é o papel de quem gosta e cuida. Mas é imprescindível que saibamos que é do outro a escolha – e que nossa visão está sempre contaminada por nossos preconceitos. A verdade tem muitas faces.

O bem estar do outro pode nos elevar, servir de estímulo para que busquemos melhorar a vida. Mas também realça o que há de errado conosco, nossas faltas ou excessos. Daí brotam emoções incomodativas, como a inveja e a competitividade. E, como reação, buscamos formas de desqualificar a felicidade alheia – um mecanismo muito comum. Somos terríveis.

Por isso, entenda o verdadeiro amigo como quem que divide o ombro para chorar, mas também sorri ao ver seu sorriso. E que se alegra com suas conquistas, até quando a própria vida não foi capaz de satisfazer-lhe os desejos. Esses merecem respeito e consideração, por saberem que amar é respeitar o outro como ele é.

Psique: Romances pautados em disputa ou anulação têm de tudo, menos amor

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Uma verdadeira história de amor não tem preço, não há nada que a substitua. E o amor que eu falo aqui não é exatamente aquilo que pregam os românticos, excessivamente floreados. Refiro-me às relações de verdade, possíveis, recheadas de cumplicidade, afetuosidade, respeito. Tudo feito de maneira recíproca, harmônica, sem envolver medo ou competitividade.

Acho linda a imagem que Rubem Alves usou para descrever o bom funcionamento de uma relação: deve ser uma partida de frescobol, na qual um parceiro deve tentar compensar a falha do outro para manter a bola em jogo – e não uma disputa de tênis, cujo objetivo é fazer uma jogada indefensável. Na prática, entretanto, vemos muito mais Roland-Garros e Wimbledon que brincadeiras à beira do mar.

E o que é pior: muitos ainda confundem concessão com anulação. Em vez de compartilhar a vida, abrem espaço e servem de degrau para que o outro possa se realizar. Fazem do bem-estar do parceiro a fonte prioritária de gratificação – chegam até a esquecer aquilo que trazem como valores genuínos, verdadeiros prazeres, crenças e ambições.

Carentes por natureza
Quando é assim, amar sai caro demais. Tem o preço de uma vida. A frustração de chegar num determinado ponto do trajeto e perceber que somos um engano, que somos personagem na história de alguém, mas não sabemos qual é a nossa própria. É pior que a clandestinidade: é não ter o direito de existir além da relação. É concentrar todo o poder no outro e dele depender para não morrer à míngua.

Nem um, nem dois, nem três. São incontáveis os casos semelhantes que acompanho, já acompanhei – e, bem provável, hei de acompanhar. E não é exclusividade minha. Todos os meus colegas têm histórias semelhantes a relatar.
E por que isso acontece? Porque somos carentes por natureza. Porque não sabemos mais construir relações baseadas na reciprocidade. Porque idealizamos um amor perfeito, imaculado. Porque ficamos apavorados diante da solidão – sem percebermos que, quando estamos em relações dessa qualidade, já vivemos sozinhos. Não queremos perder o que já não temos, uma falácia.

Só mistificamos a dor da solidão quando não confiamos naquilo que somos, na capacidade de nos reinventarmos. Estamos tão acostumados a aplicar nossos recursos para sanar as necessidades do outro, mas nem sempre acreditamos que eles serão suficientes para manter nossa qualidade de vida. Outra falácia.

Silêncio perturbador
Na fantasia, o silêncio e a passividade são uma forma eficaz de evitar um mal-estar. Mas não é verdade. Não é a contestação quem pare o problema, ela só desperta aquele que já está adormecido.

Discutir é a melhor forma de resolver um desentendimento: se cada um apresenta seus argumentos, com o máximo de clareza e a menor passionalidade possível, o que está torto se endireita. Ou será reconhecido por ambos como algo sem solução. Assim, solucionado estará. Deverão chegar a um acordo sobre o que fazer com esse fato.

Não há relação mais importante que a nossa individualidade. Inclusive, se soubermos preservá-la, teremos um romance ainda mais saudável, consensual, maduro – e, principalmente, sem o ranking do quem pode mais. É a receita do frescobol de Rubem Alves. “Ninguém ganha para que os dois ganhem.”

 

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