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Terra: SOS Casamento – mulheres que apelam para as forças ocultas

O site Vila Mulher, do portal Terra, me convidou a participar de uma reportagem sobre pessoas que recorrem a cartomantes e afins para recuperar o amor de alguém. O resultado você lê logo abaixo. 

 

SOS Casamento – mulheres que apelam para as forças ocultas

Foto: divulgação - TV Globo

 

“Que seja eterno enquanto dure”. A frase muitas vezes é dita da boa para fora pela mulherada, afinal muitas delas querem mesmo um amor sem prazo de validade.  E quando o relacionamento chega ao fim, o jeito é pedir ajudinha aos astros para trazer o amado de volta.

 “Há sempre uma crença de que as forças ocultas possam resolver nossos problemas. Para o amor, não é diferente. Muitas pessoas buscam esse tipo de serviço, fundamentada numa solução mágica para os problemas, ou até mesmo na esperança de afastar do outro o livre arbítrio à partir de feitiços e afins. Coisa que, na realidade, fica muito mais presente no campo da fantasia do que da realidade”, explica João Rafael Torres, tarólogo e psicoterapeuta junguiano.

Para o tarólogo, as mulheres recorrem mais às cartomantes pelo fato de terem maior crença e também por serem mais curiosas, já os homens costumam ser mais racionais e geralmente fazem consultas relacionadas à profissão. “Os pedidos mais recorrentes das mulheres estão focados na forma de se relacionar, elas querem ser mais amadas e desejam descobrir os motivos que impedem o relacionamento de prosseguir. Querem melhorar a qualidade de seus romances”, disse o especialista.

Com certeza você já viu cartazes espalhados pelas ruas ou pessoas distribuindo panfletos com anúncios de cartomantes que prometem recuperar a pessoa amada em apenas quatro dias, solucionar problemas no relacionamento ou até encontrar um  novo amor. A pergunta que logo nos vem à cabeça é: será que realmente funciona?

“Quando procuro uma cartomante, é para me orientar sobre situações que estou vivenciando, às vezes existem momentos que estão confusos e é sempre bom um conselho, então eu busco com essa finalidade. Minhas experiências têm sido boas, pois todos os pedidos que faço são sempre atendidos”, diz Angélica Barrone.

Infelizmente, o que para alguns parece funcionar para outros nem tanto. Existem indivíduos que não trabalham de forma séria e se aproveitam da crença e fragilidade das pessoas, fato que aconteceu com Raquel Gomes Guedes. Como sempre foi encantada pelo misticismo e nunca teve sorte em nenhum relacionamento, ela decidiu pedir ajuda para uma cartomante, mas a experiência não foi tão proveitosa. Aos 18 anos, foi morar no Rio e seu ex-noivo, que morava em Porto Alegre, sumiu e nunca mais ela o encontrou.

Simpatia para trazer o amado de volta

Procurei uma cartomante chamada Dona Márcia, e ela me disse que alguém teria feito um trabalho no qual nada que eu quisesse iria conseguir dar continuidade. Pediu-me cinco quilos de café (ainda teria que ser da marca Pilão) e velas. Com isso, ela cortaria o feitiço que haviam me jogado e ele, até o final da semana em vigor, entraria em contato. Inocente, perdi as contas de quantas semanas eu a poupei de comprar café e mesmo assim ele nunca mais apareceu”, comentou Raquel.

João Rafael Torres explicou que muitas vezes, a desilusão amorosa ou uma necessidade doentia de ter quem não corresponde aos seus sentimentos, faz com que homens e principalmente mulheres recorram aos profissionais com conduta de ética questionável.

“A maioria deles se apropriam indevidamente de valores e símbolos de religiões afro-brasileiras para prometer a eficácia desses ‘trabalhos’. É duplamente triste, primeiro por deturpar valores de tais religiões, segundo por ludibriar a fé alheia a partir de promessas que não serão cumpridas”, afirmou o tarólogo.

Mesmo recebendo propostas para fazer “trabalhos” dessa espécie, o psicoterapeuta junguiano afirmou que querer invalidar a vontade do outro é uma proposta inadequada: “Nesses casos, o melhor ‘trabalho’ a se fazer é mostrar à cliente que ela precisa se valorizar. Todos devem ser livres para permitir que o outro ame a quem quer que seja, afinal, esse é o sentido do amor, algo bem diferente da possessividade e da dependência”, concluiu Torres.

Por Stefane Braga (MBPress)

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Clique aqui para ler a reportagem no portal Terra.

Outras Ondas – O compromisso de curtir


Um personagem interessante tem tomado grandes proporções em meu atendimento clínico: o Facebook. A rede social surge como um fantástico instrumento na arte de aproximar pessoas que há muito não se viam, ou como elo agregador para aqueles que enumeram gostos e ideais afins. Diverte a muitos, que, entre curtidas e compartilhagens, comentam a piada do dia. Mas o Facebook que me chega nas sessões é um tirano nefasto: destrói namoros, arrasa reputações, planta a discórdia e o ciúme. Um elemento satânico, se nos pautarmos pela etmologia do termo satã – aquele que está no meio do caminho, o adversário ou opositor.

Quem resolve abrir um perfil na rede tem de pensar antes no grau de exposição das intimidades que está disposto a enfrentar. Uma pesquisa recente, publicada pela Psychological Science, apontou para os danos que a rede pode causar danos à autoestima dos usuários. Isso porque leva a uma inevitável e desnecessária comparação com outros perfis – obviamente, com padrões distorcidos sobre felicidade, bem estar e realização pessoal. Outros, num impulso, acabam por comentar excessivamente a própria vida, partilhando aos demais fatos negativos ocorridos, fraquezas e sensibilidades.

Por outro lado, a farta oferta de detalhes da vida alheia aguça a curiosidade. Fuxicar fotos, fatos e reflexões toma horas a fio de muitos por aí. As “curtidas”, comentários e compartilhamentos aparecem como pegadas no cimento: marcam não só a passagem, mas também a aprovação – ou não – do que foi publicado. Posts bem visitados são ostentados, com orgulho, pelo próprio sistema na página das atualizações de maior repercussão. Contabilizar amigos é sinal de status – mesmo que, ao cruzar com alguns deles na rua, falte coragem para a interação. O deus da discórdia também é o deus da vaidade.

É óbvio que o problema não está no Facebook. E nem em demonstrar vulnerabilidades para os demais. A questão é a forma e para quem isso é feito. Em clínica, percebo que muitas crises poderiam ser facilmente evitadas pela contenção. Quais os efeitos de tamanha investigação? O que estava procurando? E agora, que achou, o que fará? Na maioria das vezes, nada é feito – ao menos, de forma concreta. Mas comentários, fotos e curtidas nos perfis investigados ressoam horas na psique, plantam a insegurança e o descontentamento. Bloquear, então, é o fim no quesito da cortesia: banir do outro a possibilidade de acompanhar seus passos torna-se inconcebível, quase que desejar-lhe a morte.

A maior exposição não é praticada por quem relata os acontecimentos da vida na rede social, e sim de quem pauta pelo que lê no perfil dos outros. Não refletem sobre a subjetividade do método: conduzida por diferentes afetos, uma mesma palavra pode desembocar em diferentes sentidos – a depender do olhar de quem a lê. Nasce assim o desentendido, a maledicência, as conclusões injustas e precipitadas. Respeitar a própria intimidade é saber definir o crivo correto para separar o que merece atenção nesse meio, mas é principalmente saber afastar-se dessa fonte corrosiva dos relacionamentos, se isso for necessário. É medir a influência que as informações publicadas exercem sobre os rumos adotados para a condução da vida.

O mundo do Facebook é uma fantasia construída com fatos e personagens reais. Muitas vezes, o dano dessa fantasia é provocado pelo excesso dessa tal realidade: as pessoas se levam muito a sério. O momento de descontração se transforma em uma neurose altamente comprometedora – em certos casos, esbarra no comprometimento patológico da dependência. Tudo merece ser declarado, até mesmo a ausência de assuntos a declarar. Por outro lado, todas as atualizações ganham uma importância descabida. E o tempo vai passando uma miscelânea de inutilidades, que ganham uma estranha urgência para quem ultrapassa os limites razoáveis de envolvimento com essa e outras redes sociais.

Não teço essas considerações por criticar o Facebook, Twitter ou algo que o valha. Até porque sou adepto, praticante e fiel às novas mídias como sistema de comunicação e interação social. Enxergo esse como um caminho sem volta: o virtual, que antes configurava uma espécie de realidade paralela, é um fato é cada vez mais presente, dinâmico e interativo na história contemporânea. Permeia a todos nós, já faz parte do nosso inconsciente coletivo. Mas isso não garante que todos estão aptos a usufruir dos benefícios oferecidos, sem provocar danos ou prejuízos. Não custa lembrar: o que diferencia uma ferramenta de uma arma é a habilidade de quem a manuseia. 

Outras Ondas* – Teresinha e seus amores

Chico Buarque é um dos meus favoritos entre os poetas contemporâneos. Sua produção é capaz de comover, indignar, despertar a ternura. Isso porque ele consegue traduzir muito do inconsciente coletivo que nos permeia. Ao ouvir algumas de suas canções, a ilustre iyalorixá Mãe Menininha do Gantois se negava a crer que aqueles versos eram feitos por um homem, tamanha a sensibilidade e propriedade para falar da alma feminina.

Entre elas, destaco Teresinha. Criada para a peça teatral A ópera do malandro, a canção se tornou um grande sucesso na voz de Maria Bethânia – e também na paródia feita pelos Trapalhões na década de 80. O poema musicado é uma recriação de Chico para a trova infantil Teresinha de Jesus. Ela vai além de versos: ajuda a traduzir as expectativas femininas diante dos relacionamentos.

“O primeiro me chegou
Como quem vem do florista
Trouxe um bicho de pelúcia
Trouxe um broche de ametista
Me contou suas viagens
E as vantagens que ele tinha
Me mostrou o seu relógio
Me chamava de rainha


Me encontrou tão desarmada
Que tocou meu coração
Mas não me negava nada
Assustada, disse não”

A primeira proposta à Teresinha é tentadora: o homem provedor, aquele que chega dotado de ricas experiências e que a coloca em um alto patamar – distante demais de onde ela reconhece estar. Sensível, oferece o melhor – é invejável, inspira a imagem de perfeição masculina traçada na cabeça de muitas. Ele tenta cativar pelas posses e pelas possibilidades que pode proporcionar. Transforma assim a convivência em algo insustentável: distante demais de uma imagem de ingenuidade que a protagonista transparece. Ela se sufoca no jogo opressivo, que não permite qualquer autonomia. Teresinha entende que não tem chance, nem disponibilidade, para a competição que certamente se estabelecerá. Um homem que não a limita também não lhe oferece a chance de crescer. E isso não é o desejável para um relacionamento.

“O segundo me chegou
Como quem chega do bar
Trouxe um litro de aguardente
Tão amarga de tragar
Indagou o meu passado
E cheirou minha comida
Vasculhou minha gaveta
Me chamava de perdida

Me encontrou tão desarmada
Arranhou meu coração
Mas não me entregava nada
Assustada, eu disse não”

Na ânsia por um homem que a provocasse mais, Teresinha atrai para perto de si um errante: o homem rude, primitivo, machão “com pegada”. No entanto, ele supre a curiosidade despertada pelo primeiro pretendente. Diante de alguém com perfil persecutório, ela é chamada a se posicionar diante da própria realidade – é questionada e questiona-se diante dos papéis que vivencia. De alguma forma, o perfil a atrai: talvez pela fantasia da mulher curadora, a mãe capaz de corrigir passos distorcidos do companheiro. Porém a forma de ele agir a expõe de forma constrangedora. E isso a leva a crer que está despreparada para alguém tão intenso, tão forte, tão embrutecido. Desgarra-se de qualquer sentimento e, naturalmente, o renega.

“O terceiro me chegou
Como quem chega do nada
Ele não me trouxe nada
Também nada perguntou
Mal sei como ele se chama
Mas entendo o que ele quer
Se deitou na minha cama
E me chama de mulher


Foi chegando sorrateiro
E antes que eu dissesse não
Se instalou feito um posseiro
Dentro do meu coração”

O passado de Teresinha é repleto de expectativas. Primeiro, quer um homem que a resgate do mundo infantil. Em segundo lugar, busca aquele que a faça reagir diante da vida. No entanto, ela espera por modelos preestabelecidos de relacionamento: ou ela será a rainha soberana ou a serva subjugada. Desconhece assim o valor da verdadeira parceria em um relacionamento: diferenças devem inspirar à complementariedade, e não à adversidade.

Longe de qualquer modelo preestabelecido, chega o terceiro pretendente. Esse não tem nome, não tem rosto, não segue um papel preestabelecido. Da mesma forma, não exige nenhum tipo de postura: cultiva somente o espontâneo, a verdade de ser o que se é, sem fantasias. Não ilude com falsas promessas e, consequentemente, não gera frustrações como conseqüências. O diálogo é franco, de alma para alma. E, antes que se perceba ou que se tente estabelecer qualquer tipo de controle mesquinho, nasce o amor. Teresinha nos ensina que um relacionamento saudável é aquele que se despe de qualquer ilusão.

Outras Ondas* – Um amor na gaveta

Eu tenho um amor guardado na gaveta. É um amor íntimo, seguro, inexorável. Um amor que não deu certo, um amor impossível, um amor bom demais para que a minha humanidade consiga suportar. Uma referência viva de tudo aquilo que reflete perfeição. Não fui preterido, não sofro por não poder vivê-lo, e não estou insatisfeito com os amores possíveis de hoje. Sou sincero e declaradamente correspondido nesse amor que soa como utópico. Vivemos esse sentimento como uma promessa de felicidade num futuro que nunca chega. E, no fundo, sabemos que esse futuro não chegará.

Esse amor foi parar na gaveta por ser valioso demais para ser vivido com a fugacidade que estamos habituados. As adversidades exigiram calma e tato para melhor cuidá-lo. O tempo seguiu seu curso, cada vida tomou seu rumo. E ele se manteve vivo, embrionário, como uma semente que espera pacientemente a hora de ser cultivada.

Como é pertinente a quem ama, não poupo preocupações, elogios e mimos ao meu amor. Ligo no aniversário e desejo realmente o melhor, como se o desejasse a mim mesmo. Não me importo com quem que, neste momento, dá o abraço que eu gostaria de dar. Esse tipo de cobrança perde morada quando se há um amor assim. O importante é ver que meu amor luta para ser feliz, crescer e ser alguém melhor. É entender que até mesmo a minha ausência reforça no ser amado aquilo que tanto admiro. Na falta de quem nos completa de forma tão mágica, aprendemos a nos moldar com mais plasticidade ao que soa como diferente. Perdemos em intransigência, ganhamos em adaptação. E esse ganho se reverte no mundo que nos cerca.

Na promessa do dia do encontro, que nunca vem, encantamo-nos com o que brota do peito: aquilo de mais doce, que jamais ousamos desafiar. Lascívia e respeito se misturam em amálgama perfeita, transformando medos em tolices. E daí refletimos que tolos somos nós, que nos deixamos envolver com sonhos que esbarram na realidade.

No nosso coração, a gaveta que guarda esse amor está duas acima daquela que guarda aqueles velhos amigos que a correria da vida engoliu. Assim como eles, pode passar longos períodos no esquecimento, a ponto de enganarmo-nos achando que eles já não estão mais ali. Mas basta um breve contato, ou até mesmo uma lembrança, para percebermos o quão importantes são a mim. E não podemos confundir as sensações que isso desperta como nostalgia – nostalgia é um pesar sobre aquilo que não volta mais, e, na verdade, amores e amigos de gaveta nunca deixaram de ser o que são. Esse é o gaveteiro dos grandes tesouros, o porta-joias que não se deterioram com o passar do tempo.

De que me serve um amor, se não consigo tirá-lo da gaveta, se ele não poderá se realizar? Avareza, masoquismo, reserva de mercado, auto-engano? Nada disso. Só quem sabe o valor de um verdadeiro amor entende o porquê de não querer desperdiçá-lo com o nosso despreparo para a vida. Afinal, essa é a certeza que ele traduz: um verdadeiro amor se basta em si.

“Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.”

(Eros e Psique, Fernando Pessoa, 1934)

Um papo com Gaiarsa

Há quatro anos, uma entrevista marcou minha trajetória no jornalismo. Apesar de nunca ter sido publicada, a conversa que tive com José Ângelo Gaiarsa me ajudou a abrir os olhos sobre as questões da família, sexualidade e da psique humana. De forma direta e simples, ele tratava de temas polêmicos e questionadores.

Infelizmente, a ideia de publicação da entrevista só surgiu depois da morte do autor, há duas semanas, aos 90 anos. Ele deixa um legado importante para a família brasiliera: o despertar para a necessidade do diálogo e da compreensão. Como uma homenagem, compartilho aqui a sabedoria de Gaiarsa.

José Ângelo Gaiarsa, o “inimigo” da família *

“São 50 anos ouvindo as mazelas humanas.” Assim o médico e psicoterapeuta José Ângelo Gaiarsa, definiu sua trajetória clínica, como orientador e pesquisador das variabilidades psíquicas humanas. No último dia 16, o doutor Gaiarsa, autor de mais de 30 livros, faleceu enquanto dormia aos 90 anos. Deixou como legado uma vasta obra, além de popularizado conhecimentos sobre sexualidade, relacionamentos e família, ao apresentar por 10 anos ininterruptos o quadro Quebra-cabeça, no programa Dia a Dia da TV Bandeirantes. Inúmeras horas de estudo e de consultório deram ao psicoterapeuta a autoridade para fazer afirmações polêmicas. Gaiarsa não negava que fosse “inimigo” da família e do casamento — pelo menos da forma como são interpretados pela sociedade. Em 2006, ele concedeu uma entrevista ao então repórter da Revista João Rafael Torres, em que falou sobre traição e defendeu o fim das ilusões. “Não dá para pensar num casamento feliz para todo o sempre. O segredo da felicidade é perceber quando ela chega na nossa vida, e aproveitá-la até que esse momento se esgote”, ensinou. A entrevista acabou não publicada. Em homenagem ao psicoteraupeuta, recuperamos esse material inédito e ofereceremos ao nosso leitor.

Por que o senhor diz que a família é o lugar mais perigoso que se tem para educar uma criança?
JOSÉ ÂNGELO GAIARSA — Quem diz não sou eu, são as estatísticas. A Unicef apurou que, só em 1998, mais de 80 mil crianças da América do Sul morreram por conta de maus tratos provocados dentro de casa. A educação se torna um escudo para que a família possa maltratar as crianças. E não é só a pancada, também existe o olhar duro, o castigo psicológico, a omissão. A verdade é que não existe escola de formação de pais, e a missão de educar uma criança é uma das tarefas mais difíceis do mundo. Para 90% dos pais, educar é repetir tudo o que aprendeu dos próprios pais — mesmo que isso implique numa educação retrógrada e conservadora. Não é à toa que as neuroses nascem sempre das relações familiares.

As relações familiares têm mudado nos últimos anos?
GAIARSA — Nasci em 1920 e recordo de muitas coisas da minha infância e adolescência. Naquela época, os pais eram mais autoritários, tínhamos menos amigos, a religião tinha um grande peso. A televisão, o rádio e atualmente a internet retiraram a família desse núcleo fechado. O cenário é outro, mas o discurso é o mesmo. Há uma grande dissociação entre o que se elogia nos outros e o que se faz na prática.

O acesso à informação não deveria favorecer uma geração mais equilibrada?
GAIARSA — As crianças que nascem hoje são muito diferentes, na medida em que tem acesso a muita informação. Hoje todos têm um conhecimento mínimo sobre qualquer assunto. Isso cria um distanciamento e uma dificuldade de compreensão entre pais e filhos como nunca havia acontecido em toda a história. Fica difícil para os mais velhos acompanhar a rapidez do raciocínio dos mais novos. Para muita gente, informação demais é tóxica. Em vez de proteger, a informação intensifica o conflito, quando a comparamos com os valores transmitidos dentro de casa. Nesse momento, a vontade de se fazer “normal” diante das pessoas se transforma noutra neurose. A preocupação com isso é tamanha que a família se transforma numa oficina de produção artesanal de “normopatas”, praticamente um minimanicômio. Como consequência, crescem os dois maiores negócios do mundo: as armas e as drogas, incluindo aí os psicotrópicos e o álcool. As pessoas buscam qualquer forma de sair desse mundo. É muito difícil aguentar a realidade.

Até que ponto a dificuldade de comunicação entre pais e filhos se estende ao sexo, aos relacionamentos afetivos?
GAIARSA — Sexo continua assunto proibido. Os pais negligenciam que o bebê já tem as primeiras manifestações sexuais no sétimo mês de vida intrauterina. Logo que nascem, as crianças são educadas de uma forma que as faz negar a expressão do próprio corpo. Passa a repetir apenas gestos estereotipados, dentro do que é convencional à sociedade. Além disso, os próprios pais não se permitem demonstrar o afetivo e o erótico entre si, diante dos filhos. Não há evidências de que se gostam, como beijos e abraços. Educação sexual é isso. Não é só dar informações sobre sexo.

Em seus livros, o senhor faz severas críticas à forma como as mães se portam diante de suas crianças. Afinal, até que ponto elas são culpadas pelas frustrações futuras dos filhos?
GAIARSA — Novamente, o problema está entre a cisão entre o discurso e a prática. As mães mudaram muito. Estão mais independentes, não exercem mais tanta influência sobre os filhos e estão mais tempo for a de casa. Graças a Deus. Mesmo assim, ainda afirmo que, juntas, elas constituem o maior partido conservador do mundo. Ensinam o autoritarismo e as chamadas grandes virtudes da família, que são uma balela na sociedade. No mundo, ninguém consegue ser educado, honesto e dizer sempre a verdade. E o que é ainda mais grave e mais grotesco: elas ainda fazem questão de se manterem sagradas diante dos filhos, como se não tivessem sexo. Com isso, os filhos aprendem que só pode existir amor da cintura para cima.

Que complicações isso pode trazer para a vida de ambos?
GAIARSA — A relação entre mães e filhos começa errada logo no nascimento. Geralmente, são separados de uma forma abrupta justamente num momento importante de identificação, dos primeiros contatos, do primeiro cheiro, do primeiro olhar. Quando saem da maternidade, vem o segundo erro: pensar que devem ficar eternamente juntos. A crença de pensar que mãe é para sempre também é um pecado. Em todas as espécies, as mães cuidam dos filhos enquanto eles precisam de cuidados. No caso dos homens, não. Ninguém está preparado para esta separação. Ao contrário, é cada vez mais comum encontrar marmanjos vivendo dentro da casa da mãe santa e eterna, com tudo à mão. E, o que é pior, ela adora isso. O terceiro tabu está em querer amar todos os filhos da mesma forma, como se eles não tivessem individualidades que os tornassem diferentes.

A dificuldade dos homens de se ligarem em relacionamentos estáveis está relacionado a esse comportamento?
GAIARSA — Na fase em que passa de menino para homem, naquele período onde o sexo é o que domina a cabeça, a educação sexual é feita pelos próprios companheiros. Eles compartilham suas “experiências” de uma forma rústica, quase animalesca. Competem entre si, ao mesmo tempo que mantêm grande cumplicidade. Para se manterem integrados, deixam de agir com naturalidade. Muitas vezes, essa experiência se perpetua nos outros relacionamentos. Por outro lado, vem aquela idéia de almas gêmeas, que é predominantemente feminino. O homem patina então pelo meio termo. Nas datas especiais, manda um buquê de flores. No auge do romantismo, escreve uma música. Isso é mais uma atitude do “normopata”, por não ter espontaneidade. As pessoas se preocupam no tal do casamento para sempre, até que a morte separe. Mas não estão preocupadas em nutrir o amor. Precisam aprender que não existe felicidade plena. O segredo é perceber quando ela chega na nossa vida, e aproveitá-la até que esse momento se esgote.

As palavras do senhor desanimam qualquer pessoa que pense em casamento…
GAIARSA — (Risos) E você, meu filho, ainda acredita em casamento? Os ditos casamentos se tornaram verdadeiras tragédias cômicas. A realidade de consultório mostra que dois terços dos sofrimentos psicológicos vêm de relações familiares. Dois terços das moléstias psicossomáticas, incluindo aí o uso de tóxicos e a depressão, vem de casamentos vazios. São pessoas que chegaram a uma certa idade e desistiram de brigar pela felicidade. Se acomodam e esperam a morte. A separação é um dos maiores dramas do ser humano, mesmo quando o casamento está lotado de problemas. O indivíduo fica encurralado: se fica dentro de casa, é infeliz; se sai de casa, se sente culpado e também é infeliz.. Eu, que já casei cinco vezes, posso dar meu testemunho. A experiência terapêutica não amenizou minha dificuldade ao me separar pela última vez. A maior parte dos casamentos dura o dobro do que deveria e só se estende pela covardia.

* A entrevista foi publicada em 28/10/2010 no blog da Revista do Correio: www.correiobraziliense.com.br
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