Self

Outras Ondas* – Amy, vinte e sete

Há uma semana, a morte de Amy Winehouse contundiu admiradores em todo o mundo. Todos encaravam o fim precoce como algo inevitável diante das circunstâncias de risco que a cantora britânica se expunha. A adição de álcool e drogas participou de sua fama com a mesma proporção de sua voz, que marcou a entrada do século 21. No mesmo domingo, a imprensa já correlacionava um detalhe à notícia: a uma coincidência macabra entre a morte de Amy e a de outros importantes nomes da história da música, como Jim Morrison, Janes Joplin e Kurt Cobain. Todos tiveram vidas conturbadas pela dependência química, todos contribuíram com uma visão mais libertária do mundo a partir da contestação, todos morreram aos 27 anos. Destino ou maldição? Seria simplesmente uma coincidência?

Não há aqui uma tentativa de explicar os rumos da vida e da morte, obviamente por eles estarem fora do alcance de qualquer mortal. Mas um fator merece atenção: por que aos 27? Podemos analisar a idade a partir de um fator especial: a divisão da vida em setênios, ciclos de sete anos. O tema faz parte da visão antroposófica do desenvolvimento individual. Na crença, temos uma ressignificação da vida a cada ciclo vivido. A transição entre um e outro setênio é marcada por uma crise: somos chamados a revisar valores, a definir novas prioridades e, com isso, cultivamos uma nova autoimagem. Às vésperas de completar 28 anos, Amy e seus companheiros de sina se preparavam para adentrar no quinto setênio: aquele definido como “a crise dos talentos” por Gudrun Burkhard, autora de Tomar a vida nas próprias mãos (Ed. Antroposófica) – a bíblia do assunto, para quem se interessar pelo tema.

Costumo correlacionar os setênios aos arcanos maiores do tarot. Contando a partir de O Louco, temos no quinto setênio a imagem de O Imperador, o arcano 4. Ele nos rege dos 28 aos 35 anos, numa fase difícil onde aprendemos a lidar com a concretude do mundo. É a égide da razão, dos limites e do foco. Com o Imperador, aprendemos a colocar ordem nas coisas, somos cobrados às responsabilidades. É a hora da preocupação com o futuro, o momento das cadernetas de poupança, previdências privadas e das prestações da casa própria. Pedidos de casamento, estabilidade no emprego. Efemeridades perdem espaço para o perene. Aprendemos, efetivamente, a sermos adultos.

Mas chegamos à casa do Imperador um tanto mal acostumados. Vínhamos dos prazeres múltiplos inspirados pela Imperatriz, o arcano 3, que nos rege dos 21 aos 28. Ela nos toma pela mão para mostrar como o mundo é múltiplo, intenso e maravilhoso. Ele é nosso e temos, por dever, explorá-lo em suas infinitas possibilidades. A Imperatriz inspira-nos à multiplicidade, é fecunda: desperta assim a ilusão de que o mundo é nosso, que até os sonhos mais utópicos são possíveis de realização. Desenvolvemos nessa fase a possibilidade de crescer, ao percebermos a mágica de realizar nossos primeiros feitos. É uma fase de conquistas e experimentação, onde o futuro está distante demais para que possamos nos preocupar. Temos em nosso favor o tempo e a vivacidade da juventude – o que, às vezes, pode ser confundido isso com onipotência.

A crise na transição entre a Imperatriz e o Imperador leva um questionamento inevitável sobre o tempo. Agora, aprendemos que a dispersão não é aliada. É um período no qual buscamos um entendimento sobre o nosso verdadeiro papel: o erro fica evidente; o incômodo, intolerável. O período suscita a mudança de emprego ou profissão, contesta casamentos precoces. A vida precisa ir para frente, mas com resultados palpáveis. A ansiedade e a insegurança diante do futuro dominam. Não podemos, simplesmente, ser a mesma pessoa – mas também não temos a certeza de quem queremos ser.

Talvez a inspiração da nova fase que se aproximava fez com que Amy, Jimi e Janes se retirassem antes. Em comum, além dos 27, eles tinham a evasão pelo uso de drogas: precisavam de algo que entorpecesse a realidade, substâncias que inspirassem a fantasia e o mundo irreal. De tais viagens que faziam não retornavam apenas com inspirações geniais: traziam também os resíduos do submundo do inconsciente, que estigmatizaram o corpo e a psique com marcas danosas, levando a este triste resultado. Visitar o Imperador seria duro demais para eles, restando-lhes apenas fechar os olhos para o mundo. “Boa noite, meu anjo, durma bem” foram as palavras de despedida de Micht Winehouse, no funeral da filha.

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