Self

Outras Ondas* – O caderno de sonhos


Sonhos. O tema é tão encantador que ocupa a humanidade há milênios: buscamos formas de entender o porquê de sonharmos todas as noites, de onde vêm as imagens e, principalmente, métodos para decifrar as mensagens embutidas em cada experiência onírica. Há um bom tempo, a ciência comprovou a importância psicofisiológica dos sonhos para o indivíduo: privados dele, somos levados literalmente à loucura. Desenvolvemos a capacidade de sonhar na vida intrauterina. Trabalhar com sonhos é uma das experiências mais gratificantes no ofício de analista. Acho, inclusive, que negligenciei a importância dos sonhos entre quem acompanha Outras Ondas: deveria ter falado sobre eles há mais tempo e, para compensar, prometo fazer novos textos sobre o assunto.

Por muito tempo, os sonhos eram vistos de uma forma dicotômica: enquanto alguns não lhe conferiam nenhuma importância, outros os valorizavam com tamanha ênfase, a ponto de beirar o fanatismo. Acreditavam que as imagens surgidas durante o sono eram um instrumento de comunicação com o invisível, um canal para a expressão de deuses, demônios, gênios e espíritos.

Os sonhos ganharam outra concepção a partir da psicanálise. Ao publicar A interpretação dos sonhos, no primeiro ano do século 20, Sigmund Freud promoveu uma importante mudança de paradigmas: o sonho aparece como uma expressão direta do inconsciente – visto por ele como a sede das repressões, recalques e experiências que não permaneceram sob o domínio da consciência. Em Freud, o sonho surge como um elemento essencialmente compensatório às frustrações da vida em vigília.

Apesar de concordar em parte com essa premissa, o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung acreditava que a função do sonho não se encerrava aí. A partir da observação dos sonhos de pacientes, ele percebeu que as vivências oníricas também podiam oferecer esclarecimentos mais claros sobre dinamismos psíquicos, além de oferecer possibilidades de encaminhamento ao tratamento terapêutico. Ao sonho também seria inerente a capacidade de indicar caminhos futuros – em alguns casos, de uma forma tão contundente e clara a pontos de enxergá-los como sonhos premonitórios.

Diferentemente do que muitos pensam, a função do analista não é de interpretar sonhos, como faziam os profetas bíblicos. Jung ensina que a melhor forma de trabalhar com o conteúdo presente nas imagens oníricas é a ampliação. No processo, tenta-se encontrar o máximo possível de associações que podem se unir ao que vem espontaneamente do inconsciente. Primeiro, a partir das associações pessoais do paciente, seguida por aquilo que é inerente à cultura vigente e, por fim, aos conteúdos arquetípicos – representações universais de valores e personagens comuns à humanidade, como a imagem da mãe, da guerra e de Deus. É a partir dessas associações que percebemos um quê mágico presente nos sonhos: eles traduzem claramente o que não conseguimos elaborar enquanto estamos despertos.

É interessante ver como até mesmo um fragmento de sonho pode ser capaz de revelar maravilhas do nosso mundo interior. Lembro por exemplo do sonho de uma cliente que, certa vez, sonhou que estava pintando os cabelos. Uma imagem tão corriqueira que ela, por pouco, não trouxe para a análise por julgá-la banal. A partir do exercício de ampliação, as associações foram dando um sentido bem maior ao sonho – capaz de fazê-lo ocupar, com destaque, toda uma sessão de análise.

Jung definiu os sonhos como “um autorretrato espontâneo, em forma simbólica, da real situação do inconsciente”. Desta forma, todo sonho é completo e correto: ele pode nos trazer o necessário para a compreensão e a avaliação do estado psíquico vigente. O grande desafio está em observar o simbolismo presente nas imagens sem tanta avidez de interpretação. É perceber, antes de tudo, que todos os elementos e personagens presentes no sonho correspondem a elementos que fazem parte do indivíduo, sem exceção.

Ao sonharmos com a vizinha fofoqueira, por exemplo, precisamos estar atentos para a projeção sombria que aí se revela: até que pontos não reprimimos em nós mesmos um quê fofoqueiro? Da mesma forma, quando sonhamos que ficamos curados ao beber água em um copo idêntico ao que víamos na casa dos avós, durante a infância, devemos ficar atentos sobre os valores familiares esquecidos não fazem falta para a solução dos problemas atuais.

A melhor forma de ganhar com os sonhos é dar atenção a eles. Uma boa dica é comprar um caderno e registrar todos que surjam a partir daí. Escreva sempre no tempo presente, como quem narra uma história, e não economize nos detalhes. Ao entender que estamos dando importância ao que produz durante o sono, o inconsciente tende a nos recompensar com símbolos mais claros e fáceis de serem decodificados – alguns parecem até ter legenda. Exercite e, tempos depois, releia os registros. Permita-se sonhar e, principalmente, aprenda com seus sonhos.

nivas gallo