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Psique: Nosso melhor amigo só aparece quando estamos sozinhos

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solidão

Amiga, talvez eu tenha sido duro no nosso último contato. Não quero que me interprete mal, pois o que mais desejo é a sua felicidade, o seu amor pleno. Às vezes, desiludir é a melhor prova de amor que posso oferecer ao outro – finalizar a ilusão antes da queda, que vem sempre quando estamos distraídos. Deixe-me explicar melhor.

Percebi sua ausência nos últimos dias. Isso também me doeu, acredite. Sei que a falta que sinto é mútua, recíproca. Nessas horas, queremos apoio. Queremos presença, mesmo que silenciosa. Quero me fazer presente, mesmo que não tenha nada a dizer.

A solidão aguça a dor da rejeição. Quando nos atinge, confundimos a ausência com desprezo. Avaliamos trinta vezes nossas atitudes, para entender a separação. E endossamos a culpa, a tirana das emoções. Encontramos aquele argumento maldito para validar o dar-as-costas do outro – mesmo quando sabemos que essa responsabilidade não nos cabe. Punimo-nos por algo que está além da nossa capacidade de atuação – haveria algo mais injusto?

Sós por natureza
Seu maior temor é algo que já a acompanha, mesmo que ainda não se dê conta disso. No fundo, estamos sempre sozinhos, apesar de ansiarmos sempre por companhia. Essa é uma condição existencial: ninguém é capaz de compreender aquilo que se passa em nós. Até porque, muitas vezes, nós mesmos não somos capazes disso, especialmente nos momentos mais críticos.

Em vão, projetamos no outro essa função de tradução. Às vezes dá certo. Às vezes, dá certo por um tempo. Mas uma hora deixa de funcionar. Esquecemos que, assim como nós, o outro busca essa ressonância – e, um dia, também poderemos perder essa capacidade de traduzi-lo. E é nesse momento que, se tiver hombridade, ele admitirá e irá embora. Para o nosso bem.

O socorro está perto
Nossa companhia mais fiel, talvez a única com quem podemos realmente contar, são as nossas vozes internas. Os diversos “eus” que nos povoam, e, por hora, nos azucrinam e assombram. Mas que também podem ser a nossa salvação. É só parar de dar ouvidos àqueles que criticam e punem, para ouvir o “eu cuidador”. Ele será o nosso socorro mais eficaz.

Muitas vezes, ele usa a voz de pessoas importantes que passaram por sua vida, e que deixaram em você sinais de generosidade e acolhimento. Quem ofereceu o sorvete escondido antes do almoço. Quem te amparou naquele seu tropeço e conduziu os próximos passos. Quem simplesmente olhou com respeito, sem julgamentos nem comparações. Quem compartilhou experiências para tentar te levar a novas formas de compreender a realidade.

Silêncio para ouvir-se
Estar só é uma barra. Sentir-se só é pior ainda. Mas costuma ser na ausência do outro que conseguimos ouvir o “eu cuidador”, assim como o “eu incentivador”, o “eu sábio”, o “eu curador”. O silêncio é perturbador, mas opera o milagre certo, na hora certa.

Nosso melhor amigo só aparece quando estamos sozinhos. Precisamos aprender a confiar na providência da alma. Ela nos fala sempre, até mesmo quando estamos surdos pelo excesso de ruídos no qual nos envolvemos. Venho aqui como um simples mensageiro, sem pretensões de falar a palavra certa, nem de ser um amigo melhor do que aquela que você pode ser para si mesma. Só tenho a oferecer o ombro largo, as mãos firmes, olhos e ouvidos abertos para a sua dor.

Cuide-se. Eu te acompanho. João.

 

 

Jungtril #1 Compartilhar experiências

CHEGOU! Jungtril, uma dose de Jung para induzir a sua consciência. Como funciona: áudios de aproximadamente 2 minutos, com o trecho de alguma obra junguiana, seguido por um breve comentário. Recomendação: a todos que buscam novos conteúdos para amplificar a consciência. O uso é livre, e você pode compartilhar com quem achar que deve (é possível baixar o áudio via soundclound). A primeira edição fala sobre as necessidades de compartilhar vivências para uma melhor compreensão da experiência.

Vem ver! Digo, vem ouvir!

 

Psique: Dá muito trabalho ter sorte. Melhor não contar com ela.

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sorte

Acho lindo o conceito de sorte. O acaso, o destino, o azar… A vida que simplesmente acontece, espontânea, alheia aos determinismos e controles. Vejo tanta lindeza justamente por não perceber que isso seja algo banal, vulgar, que ocorra com a facilidade que a maioria acredita.

Na maioria dos casos em que a sorte é responsabilizada, o que se vê é um tipo de terceirização de responsabilidades. Tanto nas situações positivas, quanto nas negativas. Nos casos de boa sorte, vemos ser atribuído a um ente mágico o fruto do esforço do sujeito.

É como se transferisse créditos a algo que está além de si – deuses, conjunções astrais, forças e energias. Injusto, a meu ver. Pois, em grande parte das situações, os sortudos são dignos dos benefícios alcançados. Merecedores mesmo, devido aos serviços prestados, àquilo que aplicaram. Tudo se deu longe de qualquer graça divinal.

Quando a sorte falta, o que se vê é uma engrenagem semelhante, só que funcionando ao contrário. Letargia, ingerência, descrença, incompetência, intolerância, teimosia. Tudo isso se encobre facilmente sob o manto do azar. Ele é o curinga para os déficts de envolvimento com nossos empreendimentos.

Balcão de recall
No meu ofício de terapeuta, ouvi tais discursos inúmeras vezes. Também lido constantemente com a ânsia de encontrarem, em alguma terapia, uma espécie de balcão de recall instantâneo da sorte. Como se fosse possível alterar uma sina com a palavra certa, a pergunta certa, a reza certa. Não é.

Muito disso se dá por causa do excesso de expectativas. As pessoas traçam um destino fantástico, distante demais da contrapartida necessária para a realização do mesmo. Aquela “vida boa”, que você tanto admira, exige para ser mantida. Em qualquer área, os bem-sucedidos não são pessoas “agraciadas”, e sim dedicadas àquilo que creem e fazem.

Assim sendo, a conclusão é meio frustrante para quem aposta no invisível: dá muito trabalho, custa muito ter sorte. Ela mora no alto da montanha, e não na próxima esquina. É melhor contar com você, e não com o acaso.

Sangue, suor e lágrimas
Essa busca por uma solução mágica, imediata e novamente terceirizada, é uma simples maquiagem – a mudança rasa que não altera a essência. E que, invariavelmente, levará à repetição dos mesmos erros. É óbvio que creio numa transformação, meu trabalho é estimula-la. Mas sei que ela é resultado de esforço, de tempo e, principalmente, de muita entrega.

Inclusive, se quisermos ser tocados de fato pelo inesperado, temos de apostar no empenho. Esse foco é o sinal que oferecemos à alma, para que ela encontre as soluções que o “eu” não consegue enxergar.

Ou seja, essa transformação exige de nós a submissão a algo maior. Quando nos submetemos à sorte, não conseguiremos manipular o sabor dos acontecimentos. Mas precisamos ser confiantes naquilo que nos surge, como o melhor para o nosso progresso individual. Enquanto esse dia não chega, vai fazendo. Uma hora acontece.

Psique: “Aprender a sair da mesa quando o amor já não estiver sendo servido”

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rejeição

Amiga, eu sei o tamanho da sua dor. Sei como ela faz desatinar, toma-lhe o norte. Sei do seu desejo de amar, do quanto essa referência é uma falta que lhe toma o peito. Sempre tomou. Era para ser simples, doce, mágico. Mas existe a realidade, e ela é dura: nem todos enxergam valor em nosso tesouro.

Às vezes, nem nós mesmos sabemos mensurar. Por isso cometemos certos equívocos. Como, por exemplo, privilegiar quem não merecia, dar-lhe um lugar de destaque sem perceber as verdadeiras intenções. Mas como conter-se diante de uma possibilidade de cura, depois de tantas feridas? Como regular algo que jorra tão fortemente de dentro do peito?

Talvez a questão seja a desmedida. As queixas dos que passavam desembocam na mesma foz: excesso de amor, impossível de ser correspondido à altura. É muita sede, muita fome de partilha. E, quando estamos guiados por esse falta, exigimos na mesma medida em que queremos oferecer. Tememos que acabe, e precipitamos o fim. Cumprimos a sina do abandono.

Aprender a amar
Sei que a origem de sua dor vem de antes da mocidade. Talvez as relações tenham sido apenas uma estratégia para aplacar uma dor anterior. O mal de precisar muito do outro para perceber os valores que tem. Típico de quem não aprendeu a se amar, a não se perceber.
Sim, nascemos crus. E, até mesmo para vivenciar o amor, precisamos conhecê-lo, aprender a amar e ser amado. Mas nossas referências podem ter sido insuficientes.

A rejeição é o foco da dor humana. Atravessa a todos nós, em maior ou menor grau. Queremos a aceitação do outro para que nos sintamos dignos da existência. E, por mais que façamos, na tentativa de mostrar nosso valor, o que buscamos no outro é a espontaneidade. E assim nos colocamos à mercê: há quem manipule nossos sentimentos, cresça por nossa vulnerabilidade.

Amor é liberdade
Não se culpe por nada. A dor de amor só lhe toca porque você está tentando, está disposta a acertar. Acredite: os que passaram são excelentes professores, até quando agiram com tirania. Eles são oportunidades para que os velhos erros não sejam repetidos. Mas não se angustie por ainda não ter acertado. Chegará sua hora. Eu acredito nisso.

Mas compreenda que a sua dor original não será sanada por quem aparecer daqui por diante. Esses serão apenas amparo, incremento para que você suporte o peso de sua história. Somente. Não exorcizarão os fantasmas de quem deveria ter sido suficientemente bom em sua vida, e não foi.

Tomara que os que cheguem possam ensinar outras formas de amar. Com mais segurança, em paz diante da espera. Quando apertamos muito algo entre as mãos, iremos deforma-lo. Ou então escapará por entre os dedos. Amar é criar solto, com liberdade para ir e vir. Assim como se faz com os filhos. Não é esse aí o dito “amor incondicional”? Todo amor é incondicional, pois não tece exigências para acontecer. Se não é assim, não é amor.

É chegada a hora da despedida. E fazer desse exercício também um aprendizado. A hora de ir embora sempre chegará, cedo ou tarde. Quando aprendemos a reverencia-la, o que é bom fica ainda melhor. Mas, como cantou Nina Simone, “você tem de aprender a sair da mesa quando o amor já não estiver sendo servido”. Sigamos.

Com amor, João.

Psique: A culpa é da mãe e do pai. Mas a responsabilidade de viver bem é sua

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Funny family feet under the blanket

Já tive clientes que desistiram do processo da análise quando começaram a questionar figuras, até então, maravilhosas. Não queriam apagar a imagem heroica, cuidadosamente lapidada, que atribuíam aos pais. Sentiam-se culpados, pecadores. Também atendi pessoas que estavam no extremo oposto: lastimaram, por anos a fio, a família à qual pertencem. Atribuíam todo o insucesso que viviam àquilo que receberam em casa.

Com ambos os casos, agi como advogado do diabo. Ou seja, como analista, tomo partido de quem é acusado. E assim ajudei a destronar mães e pais perfeitos – e mostrar o quão são humanamente falhos, e, até mesmo, fieis contribuintes para as queixas dos meus clientes.

Em outros casos, pude mostrar como as queixas depositadas sobre pais soavam como uma autoindulgência rasteira, uma forma de transferir responsabilidades como estratégia infantil de evitar o compromisso com a vida.

O meu lugar em casa
De fato, as relações parentais têm grande influência na definição daquilo que somos. Aos que não nutrem a reflexão, será determinante: tenderemos a agir em correspondência direta aos scripts ditados pela família. A vida será apenas uma tentativa de atender os papeis e expectativas que nos são projetados, ou então de fugir dessas atribuições.

A companhia dos pais não cessará nem mesmo após a morte dos mesmos. O olhar repressor, a queixa manipuladora, as medidas de boas maneiras, o adjetivo incapacitante… Quem está sob esse enfado nunca está só: é como se, a cada passo, estivesse em constante avaliação dessas imagens parentais. Dita quem devemos ser, o caráter que devemos assumir, quais frustrações devemos reparar. É uma verdadeira maldição.

É libertador entender que nem toda herança que nos é oferecida precisa ser validada. Os pais tendem a transferir aos filhos aquilo que gostariam de ter vivido, mas não puderam. É uma pena, mas não somos os responsáveis pelas escolhas que fizeram, nem pelas circunstâncias que tiveram de enfrentar. A eles, uma constatação: a vida é limitada – e essa lei estava escrita antes mesmo do nascimento dos nossos ancestrais mais remotos. Conformemo-nos com isso.

Desenvolva-se
Cada ser humano tem pleno direito à individualidade. Isso significa que a ele é conferida a chance de desfrutar daquilo que é em sua essência. Seja isso semelhante ou contraditório ao que foi esperado pelos seus pais. Nem sempre isso é possível, justamente porque nenhum escravo é capaz de servir a dois senhores. Nesse caso, privilegie a alma – a sua, não a deles.

Desenvolver a consciência tem como pressuposto aprender a diferenciar-se do meio no qual está inserido. Em geral, a família é o ponto de partida. Não para transformar esse exercício em um muro das lamentações – acho improdutivo e enfadonho. Mas para que possamos perceber que a influência que nos foi transferida deverá ser encarada como uma referência. E que posso angariar outras referências ao longo da vida. Muitas vezes, até bem mais saudáveis que as originais.

Assim sendo, não precisamos encontrar justificativas e culpados para nossas angústias e limitações. Nossos pais são, e foram, somente aquilo que conseguiram ser.Assim como nós, diante da vida e dos nossos filhos. Amadurecer depende de uma postura reverente à nossa origem, mas assumida com desprendimento. Se permanecermos ancorados ali, jamais conseguiremos seguir em frente, traçar nosso próprio caminho.

nivas gallo