Self

Outras Ondas – Os mil tons do masoquismo

Os punhos, imobilizados por uma gravata, situa Anastasia em estado de plena disponibilidade aos desejos de Grey. Enquanto tem os desejos estimulados por uma chibata, percorre suavemente o corpo, até que o suspense se faz: a excitação aumenta a cada segundo entre o momento em que o artefato se afasta do corpo, e quando a ele retorna, agora num golpe seco, definindo quem comanda a cena. Tudo se dá num clima de sedução e mistério, minucioso e envolvente. Vivem tal realidade como num jogo meticuloso, orientado pelo domínio e pela submissão. O clima erótico masoquista que envolve tais personagens arrebatou o mundo, primeiramente a partir do fenômeno editorial da trilogia Cinquenta tons… , escrito pela londrina E.L. James – os livros passam da marca de 100 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo, segundo informações da editora Vintage Books, dona dos direitos autorais da obra. Recentemente, o tema retorna à notoriedade a partir da adaptação do primeiro volume, Cinquenta tons de cinza, para o cinema.

Sem trocadilhos, o masoquismo domina a fantasia de homens e mulheres. Uma pesquisa britânica com mais de 19 mil pessoas mostrou que as fantasias sexuais que envolvem humilhação mobilizam 6% da população. Um percentual de 18% dos homens e 7% das mulheres ingleses (cerca de 5,85 milhões de pessoas) declarou se excitar com a ideia de bater em outra pessoa; 11% dos homens e 13% das mulheres fantasiam em apanhar durante o jogo erótico. É verdade que, em muitos casos, tudo fica num campo de idealização: poucos se identificam com a temática a ponto de leva-la à prática, com seus parceiros sexuais. E também não podemos ficar somente nessa nuance do masoquismo. Além do jogo erótico, ele atravessa diversas outras relações do cotidiano.

No entanto, essa estatística é defasada. Isso porque o contabilizado aí se refere apenas às práticas eróticas e sexuais. Podemos definir o masoquismo como uma dinâmica relacional, ou seja, uma espécie de molde de vínculo entre dois ou mais sujeitos, independentemente da natureza da relação. No caso, as relações de caráter masoquista se caracterizam pela associação entre amor/atenção/carinho/prazer com humilhação/desprezo/agressividade/dor. É uma espécie de distorção, pois depende do sofrimento para a realização da relação. Nessa dinâmica, os agentes se dividem entre masoquizantes (os ativos, que impõem, dominam, humilham) e masoquizados (os passivos, que se submetem, são humilhados). Esses papeis são bem estabelecidos, mas podem se alternar com a convivência. Mas nunca os participantes estão em pé de igualdade: são regidos pelo poder.

Isso faz com que o masoquismo não seja exclusividade dos casais. Ele também pode estar presentes em encontros de outra natureza: chefe e empregado, pai e filho, sacerdote e discípulo etc.. Cinquenta tons são insuficientes: são mais de mil nuances possíveis nessa forma de troca entre dois ou mais indivíduos.  Extremamente comprometidos entre si, os agentes da relação masoquista vivem sob uma espécie de contrato, tácito ou explícito, que delimita os papeis e as prioridades da relação. Relacionam-se de uma forma bem ritualizada, exclusiva, como quem segue scripts. Mantém entre si uma espécie de dependência afetiva, explicitado pelos jogos de manipulação retroalimentados pelos agentes, transformando a relação num elemento validador da existência.

Não visam a dor pura e simples, como pensam os leigos. Na verdade, entendem o sofrimento, a privação, a humilhação etc. como um caminho, um preço razoável a pagar para se sentir cotado, observado, inserido, desejado, querido. Negligenciam o respeito e o amor próprio como valores máximos, acima de qualquer relação. A motivação é uma espécie de carência, muitas vezes que não se conhece exatamente de que. O masoquista teme, antes de qualquer coisa, a perda: evita o distanciamento da fonte de nutrição afetiva e, em nome disso, rende-se ao desejo do outro. Diferentemente do que pensa a maioria, não existe o dito sadomasoquismo: apesar de ambas associarem dor e prazer, tratam de duas dinâmicas muito adversas entre si, impossíveis de funcionar como complementares.

Posso afirmar que, em maior ou menor grau, o masoquismo nos atravessa a todos. Num grau mais ameno, aparece como uma fantasia de imposição ou submissão. Em suas nuances mais escuras, tal necessidade transpõe os limites da razoabilidade, transformando-se numa exigência patológica, quando passa a assumir um caráter compulsivo que impede a realização de vínculos baseados em outras dinâmicas relacionais possíveis. Compromete assim a saúde global: física, moral, psíquica, social, relacional, familiar, econômica, espiritual.

As origens do masoquismo no psiquismo são múltiplas, mas em geral tem franca relação com a infância e as referências parentais, ou seja, com o modelo de relação apreendido dos pais e familiares próximos. Há também casos deflagrados por situações traumáticas, como sujeição a abusos – não exclusivamente de ordem sexual. Independentemente da origem, a situação original dá origem ao complexo masoquista, que tenderá a buscar situações que o corrobore. A depender do histórico e da estrutura, o indivíduo poderá assumir o papel ativo (que impõe) ou passivo (que se submete) na relação. Pode, inclusive, alternar entre essas duas vertentes, a depender do agente complementar que encontre. Por exemplo: impõe-se diante dos funcionários, mas age de forma submissa diante da mulher.

Ao entendermos o masoquismo como uma dinâmica relacional, não podemos considerá-la uma escolha ou eleição, e sim uma necessidade. Até mesmo entre os sujeitos identificados com essa dinâmica, ou seja, os consumidores de algemas e outros apetrechos de sexshops, percebe-se um conflito latente por estarem vinculados a tal vivência. O masoquismo surge como uma estratégia relacional pela ausência de outros referenciais mais saudáveis. Assim sendo, o masoquista não é alguém a quem cabe julgamentos morais ou sociais. Como qualquer ser humano, ele busca a sua realização, o seu ideal de felicidade, a partir dos recursos que conseguiu desenvolver para viver. Observa o mundo com sua óptica particular. A intervenção analítica/terapêutica se dá não com o intuito de cura, e sim de despertar a outras formas de relação possíveis. Dessa forma, pode reduzir os possíveis prejuízos ocasionados pelo masoquismo, pela ampliação da consciência, em nome do bem-estar.

Visto de perto, percebe-se no ato masoquista um escape para a saúde: ele surge na maioria das vezes como uma oportunidade de revisitar situações e temáticas mal assimiladas pela psique, com o intuito de dar a elas um novo significado. Assim sendo, seguem o impulso construtivo do Self, a nossa totalidade psíquica, que sempre aponta à autorrealização do indivíduo como alguém pertinente a si mesmo e pertencente ao sistema no qual se insere. Busca, com isso, nortear a um sentido para a existência.

Veja Brasília: 100 tons de masoquismo

A coluna Nas asas do Planalto, assinada por Lilian Tahan na Veja Brasília, antecipou a publicação do livro que escrevo sobre o masoquismo. Ficou assim:

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Foto: Roberto Castro/Veja Brasília

 

100 tons de masoquismo

Levante a mão (acorrentada) quem sempre achou que o masoquismo se limita às relações eróticas e se enquadra apenas nos encontros de alcova. Engana-se, pois. Tecnicamente, a dinâmica em que uma pessoa escolhe ser o dominador e a outra o dominado é muito mais ampla e pode envolver o vínculo entre amigos, mãe e filho, chefe e funcionário, por exemplo. O assunto virou tema do livro que o psicoterapeuta e analista junguiano João Rafael Torres  lançará até o fim do ano. “Não são só cinquenta tons de cinza, mas 100 tons de masoquismo. Esse processo que confunde cuidado, amor e atenção com violência, imposição, submissão e humilhação atravessa vários tipos de relação em diversas gradações”, alerta Torres. Embora seu livro seja mais voltado para o público especializado, se metade dessas possibilidades de masoquismo já fez muita gente pirar, imagine o que um leque ampliado não pode causar.

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Clique aqui para ler a coluna no site da revista Veja.

Tarot Analítico em São Paulo

Amigos de São Paulo, estarei na cidade entre os dias 27 e 30 de março, atendendo com Tarot Analítico – método de interpretação do oráculo que desenvolvi, a partir dos conceitos da psicologia junguiana. As consultas têm, em média, 1h40 de duração e serão realizadas em Moema e Pinheiros. Os agendamentos podem ser feitos pelo email consulta@selfterapias.com.br .

 

Babel: Quando amar é demais

Concedi uma entrevista sobre o amor compulsivo ou patológico à Revista Babel, da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Eis o texto.  

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Duas mulheres falam sobre sua dependência em relacionamentos destrutivos

Por Beatriz Amendola

“Eu atravessava a cidade para encontrá-lo. A gente transava no carro, para logo depois ele me largar em alguma estação do metrô e ir embora. Eu ia embora chorando todas as vezes, querendo que ele conversasse comigo. Ficava no carro enrolando, esperando que ele me quisesse por mais tempo. E ele continuava me dizendo que tinha que ir, que eu devia ir. Isso me destruía completamente. Não me sentia nada além de um corpo”. O relato pode parecer inspirado em um romance da ficção, mas o faz-de-conta não é tão inventado assim quando se trata de relacionamentos amorosos que trilharam um caminho bem diferente do tão desejado “felizes para sempre“ e passaram a se sustentar na dependência emocional.

Luciana*, a protagonista do relato acima, é uma entre tantas pessoas no mundo que viram seus namoros e casamentos – aparentemente perfeitos – entrarem numa espiral permeada por insatisfação, indiferença e até humilhação, mas que não desistiram por se verem demasiadamente ligadas ao parceiro. São histórias que contradizem ao máximo o famoso verso de Camões, que chegou a dizer que o amor “é ferida que dói e não se sente“. O amor dói sim – mas quando ele vira um inferno essa dor  passível de ser ignorada.

Desiludida após um relacionamento fracassado, Luciana não resistiu ao charme do colega de trabalho comprometido com outra mulher. “Pela primeira vez, decidi que ficaria com alguém que namorava, sem sequer me importar com sentimentos alheios. Afinal parecia que ninguém se importava com os meus. Então, fiquei com o João*, mesmo ele namorando“. Mas sua intenção de apenas aproveitar o momento foi além disso – e ela caiu nos encantos do rapaz infiel que lhe dispensava o afeto e carinho pelos quais ela tanto esperava.

“Nunca na minha vida tive aquela atenção, sequer dos meus pais… e estava lá alguém que parecia me dar tudo que nunca tive… como deixar aquilo? Parecia tão injusto comigo. Quantas mulheres não se envolviam com homens casados e tinham relações de anos? Era o que eu pensava naquela época. Mas Deus foi injusto comigo, me fazendo ficar com alguém que meu deu tudo e que eu teria que abandonar. E não, eu não abandonaria a ‘melhor coisa que me aconteceu’. Eu estava completamente iludida”, disse Luciana.

A ilusão pelo “bom-moço“, essa figura tão mística que está presente na cabeça das mulheres desde cedo, não fez dela sua única vítima. Apaixonada por um amigo de seus primos, Maria* viu nele o homem de seus sonhos. “Aparentemente parecia perfeito: bonito, inteligente, carismático, dentista com consultório próprio, solteiro”. O namoro veio rápido, um mês depois.

Os problemas, porém, começaram a aparecer quando ele passou a alimentar sua insegurança com comparações entre ela e sua ex-namorada e isso a levou a adotar atitudes apenas para a satisfação dele. “Ele dizia que ela era incrível na cama, tinha experiências bissexuais… isso já despertou uma insegurança enorme em mim e comecei a me sujeitar a várias práticas sexuais para agradá-lo, como sexo anal frequente e até asfixia”, conta.

O parceiro ainda passou a mostrar uma faceta que se revelou dominadora e agressiva, o que forçou Maria a entrar em um ciclo de tensão constante: “Ele tinha acessos de fúria e eu não podia discordar dele em nada, ficava oprimida. Qualquer besteira era motivo para ele gritar comigo, dizer que queria terminar, que não gostava de mulher enchendo o saco e que tinha uma monte de outras mulheres atrás dele. Bem cruel, eu diria. De um estado amoroso se transformava num monstro agressivo. Nessas situações eu me humilhava, pedia desculpas, chorava muito e depois ele sempre se arrependia, pedia desculpas. Era emocionalmente muito desgastante”.

Marcados por agressividade, descaso e indiferença, os relacionamentos das duas mulheres se encaixam na categoria de relacionamentos destrutivos, que possuem um conceito mais amplo do que a violência física a qual costumam ser associados frequentemente. Além dos possíveis danos físicos, esse tipo de envolvimento pode causar prejuízos morais e psíquicos que variam de pessoa para pessoa, uma vez que a dor e a humilhação são sentimentos extremamente subjetivos. “Uma palavra, ou até mesmo uma negligência, pode levar a um comprometimento semelhante a uma agressão física, a depender da fragilidade de quem a recebe”, explica o psicoterapeuta e analista João Rafael Torres

No caso de Maria e Luciana, as relações, que duraram mais de um ano,  deixaram marcas profundas na vida e na alma de cada uma. Tomada pela insegurança e pelo medo, Maria parou de comer. Perdeu quase dez quilos. Obcecada e com depressão, começou a tomar tranquilizantes e, pelas faltas frequentes no trabalho, acabou demitida. Reuniu forças e pediu um tempo para o namorado. Pouco depois, entretanto, os dois combinaram de passar um ano novo juntos. E ele desmarcou de última hora. “Surtei“, diz ela, que reagiu se entregando ao vício em álcool e drogas nos meses seguintes.

Luciana soube do término do relacionamento pela namorada de João* – com quem, aquela altura, ele havia tido um filho e exibia felicidade nas redes sociais. A “oficial“ lhe enviou um email, onde contava que sabia do caso e colocava um ponto final na história. Do amante, porém, não ouviu uma palavra sobre isso, ainda que ele ligasse para conversar periodicamente. Mesmo sem se encontrar com ele, Luciana esperou dois anos que ele largasse a família para viver com ela – o que nunca aconteceu.

As consequências nefastas para a segurança e a própria imagem, ainda nos estágios iniciais dos relacionamentos, não foi suficiente para afastar Luciana e Maria dos – ao menos no sentido mais literal da palavra – companheiros. O misto de insegurança e traumas passados tornou o processo de desvinculação mais complicado do que poderia ser. Iludida pela ideia de ter encontrado “o homem de sua vida“, Maria ainda foi afligida pela ideia de não conseguir um casamento depois.  “Estava realmente apaixonada e achava que ele era o meu príncipe encantado. Como eu já estava com mais de 30 anos , na minha cabeça achei que fosse minha última chance de casar, pois já sofria muita pressão social por parte de amigos e família.”

Já Luciana encontrou em João o reflexo da própria história de sua família. “[Ele era] o homem inacessível, como meu pai. Sempre tendo mais de uma mulher. E hoje, percebo que, se ele abandonasse a família, seria a prova maior de amor. Meu pai fez isso, abandonou a família dele pra ficar com minha mãe. Eu ficava porque era tão bom ter atenção… e era algo que sempre lutei muito pra ter na minha família, e estava alguém lá, carente como eu, que no começo supria isso, e cada vez que eu ia embora, ele vinha e me dava toda aquela atenção, todo aquele carinho que eu não tive”.

Vindos do presente ou do passado mais distante, os medos e inseguranças exacerbados contribuem para que a situação, mesmo que infeliz e com possíveis violências psicológicas, se cristalize, de acordo com a psicanalista Belinda Mandelbaum, coordenadora do Laboratório de Estudos da Família, Relações de Gênero e Sexualidade do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP). Para ela, a manutenção desse quadro está associada a padrões que vêm desde a infância e se repetem continuamente.

João Rafael Torres corrobora essa análise, afirmando que o histórico familiar, particularmente, é imprescindível para construir a baixa autoestima que levará uma pessoa a se atrelar a um relacionamento destrutivo. “É nas relações parentais que aprendemos o “modelo” de relação a seguir. Por exemplo: a filha de uma mulher que tenha se submetido ao masculino tenderá a buscar homens que repitam o mesmo padrão de comportamento; ou poderão caminhar ao outro extremo, assumindo o papel da “mulher forte”, que se impõe sobre o masculino – ou seja, buscará homens vulneráveis, e a dinâmica abusiva será mantida“.

A autoestima, essa percepção que cada um tem de suas características e de seus valores, é um conceito chave para se compreender a dependência em relacionamentos ruins. Com uma dificuldade em reconhecer suas próprias virtudes, a pessoa passa a buscá-las no parceiro, o que fará com que a relação seja supervalorizada. Soma-se a isso o fato de a insistência do companheiro ser vista por ela como um sinal de valorização, a grande realização de quem sofre com problemas de autoestima. “Obviamente, é uma gratificação torpe, pois acrescenta poucos valores a cada um dos envolvidos“, completa João Rafael.

Um namoro ou casamento de caráter destrutivo pode fazer  muito para agravar o quadro, pois deixa a pessoa ainda mais vulnerável a suas inseguranças, de acordo com Belinda. “Há relatos de pessoas que sofrem essa violência sistemática e acabam incorporando o discurso e se sentindo sem valor. O companheiro pode fazer muito no sentido de melhorar a auto estima ou prejudicar”.

O adicional da violência, porém, não é um fator que só aparece em casos particulares. Belinda explica que ela é um componente que está nos fundos de qualquer relacionamento, uma vez que o amor e a atração também convivem com sentimentos de raiva, ódio e frustração. “A diferença de como a situação se desenvolve vai depender da dinâmica do casal. Tudo depende de como o casal lida com esses sentimentos. Se eles conversam, se há uma expectativa de que eles devam sempre concordar em tudo, se um precisa culpabilizar o outro”, explica.

A relação de Luciana com  João acabou tomando esse rumo quando as brigas se tornaram frequentes e ele parou de atender suas ligações para evitar discussões. Com a pouca conversa e os contatos esparsos, ela confessou que sua autoestima foi abaixo: “eu ficava louca e ligava, ligava, ligava… umas 30 vezes. Me sentia impotente e não podia ligar pra casa dele, pois sabia que com isso ele me abandonaria de vez. Então chorava e, após um tempo, entrei em depressão. Me sentia humilhada, um corpo, um símbolo sexual, uma vagabunda, uma destruidora de lares, uma mulher sem moral. Era uma briga constante comigo, me senti mais baixa do que nunca”.

O relacionamento atribulado com o ex egocêntrico – que chegou a decidir o futuro do namoro em um jogo de paciência – também detonou o bem estar de Maria consigo mesma. “Estava surtada, com as ideias embaralhadas, com um desespero profundo. Achei que fosse morrer de tanta dor, não via luz no fim do túnel  Era como se ele fosse o último homem na face da terra e eu fosse ficar sozinha, me sentindo um lixo, para sempre”.

Após as experiências, tanto ela quanto Luciana ainda se consideram em recuperação, ainda que haja uma diferença de seis anos entre o fim de seus namoros. Ambas encontraram conforto nas reuniões do grupo Mulheres Que Amam Demais Anônimas (MADA), onde as mulheres que já passaram por situações de relacionamento destrutivo se ajudam compartilhando suas histórias. “Tenho tido grandes progressos em relação às minhas atitudes perante os relacionamentos e tenho certeza que jamais me sujeitarei a uma situação emocional  como essa novamente. No início, é difícil modificar os padrões de pensamentos e atitudes, mas depois de um tempo mudamos realmente”, conta Maria, que já frequenta o grupo há sete anos.

Não há uma fórmula única para se recuperar das marcas deixadas por relacionamentos destrutivos. Segundo João Rafael, porém, o autoconhecimento e o fortalecimento dos próprios valores é uma das chaves para evitar a mesma armadilha no futuro. “Potenciais abusadores estarão sempre disponíveis para encontrar novas vítimas. Mas só será vulnerável a essa investida quem não exerce o respeito por si mesmo”.


*Os nomes foram trocados para preservar a identidade das entrevistadas

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Universo Ufes: Relacionamento à distância dá certo?

O repórter Edézio Peterle, do blog Universo Ufes, escreveu sobre relacionamentos à distância e usou um texto que produzi como referência. O conteúdo da reportagem está aqui abaixo. 

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No próximo dia 12 é comemorado o Dia dos Namorados. Nessa data muitos casais bolam um programinha a dois, como um jantar ou um filme romântico, o que não pode é passar em branco uma data tão especial para quem está apaixonado. Mas o que fazer quando o amor da sua vida mora longe de você? É possível manter um namoro encontrando-se um dia na semana, mês ou até mesmo uma vez por ano?

Não é de hoje que os relacionamentos de pessoas que moram longe uma da outra existem. As tecnologias de comunicação permitiram romper as barreiras da distância e são o meio de namoro de muitos casais que os quilômetros separam. As cartinhas escritas a mão foram sendo substituídas pelos torpedos SMS, redes sociais, skype e demais meios.

O psicanalista João Rafael Torres, afirma em seu blog da Self Terapias (Brasília-DF) que é importante considerar se o relacionamento começou a distância ou se foi uma situação posterior. “Um relacionamento iniciado nesses moldes pode oferecer grandes riscos. O primeiro deles é a projeção, ou seja, a pessoa não se apaixona exatamente pelo que é a outra, e sim pelo que queria que ela fosse. Por esse motivo, muitas vezes, quando o casal se conhece, o encanto termina. Na verdade, percebem que o romance era fundamentado numa idealização e não na realidade”, explica.

Brasil e Holanda: Namoro internacional de Yohana e Willen

Yohana Dumas e Willem Van der Welde são um exemplo de namoro a distância que deu certo. Ela, brasileira, ele, holandês conheceram-se em 2009, quando Willen fazia intercâmbio de Engenharia, na Ufes, e Yohana cursava Letras-Inglês. Além de estudarem na mesma Universidade, eles moravam em prédios vizinhos no bairro Jardim da Penha, em Vitória.

Em um dos típicos encontros entre vizinhos realizados no estacionamento do condomínio, Willen chamou a atenção pela aparência européia e por não saber falar português. A mãe de Yohana chamou-a para fazer a tradução e possibilitar a conversa entre o Holândes e o grupo de amigos. A partir daí, o futuro casal de namorados passou a se encontrar nos intervalos das aulas, nos almoços do Restaurante Universitário (RU) e nos encontros com amigos em comum. Começaram a namorar e se viam com frequência.

Depois que o intercâmbio terminou, Willen voltou para a Holanda e o casal se encontrava apenas duas vezes por ano. Ele vinha para o Brasil nas férias de verão na Europa. E, Yohana viajava para a Holanda nas férias de verão no Brasil. Quando estavam separados pelo Oceano Atlântico, eles se comunicavam pelo Skype, trocavam e-mails e cartas.

Yohana e Willen            Foto: Arquivo pessoal

Yohana e Willen Foto: Arquivo pessoal

O namoro internacional durou por três anos e meio. Em dezembro de 2012, Willen e  Yohana casaram-se em Vitória. Ficaram ainda separados pela distância por seis meses, até que em junho de 2013, Yohana embarcou para a Holanda, onde, hoje, mora com seu marido Willen. Quando perguntada qual o segredo para manter um relacionamento a distancia, ela responde: “A vontade forte de estar junto da pessoa,  de fazer coisas juntos, a confiança e, é claro, o amor”.

Usalio e Juliana: distância devido ao trabalho

Usalio Piveta e Juliana Borges conheceram-se na faculdade, ambos no curso de Comunicação Social da Ufes, ela na habilitação de Jornalismo e ele em Publicidade e Propaganda. Namorados há quase quatro anos, garantem que para um relacionamento a distância dar certo o diálogo entre o casal é fundamental.

No início do relacionamento Usalio e Juliana se viam todos os dias. Colegas de curso e vizinhos de república em Jardim da Penha, tinham um namoro bem presente. “Os primeiros três meses foram maravilhosos, de conhecimento um do outro. Como não tínhamos trabalho e nem estágio, passávamos quase 24 horas por dia juntos”, afirma Juliana.

Usalio Piveta e Juliana Borges

Usalio Piveta e Juliana Borges
Foto: Arquivo pessoal

Hoje, Usalio é policial militar e trabalha em Marechal Floriano. Juliana é jornalista em um veículo da Grande Vitória. Eles se veem apenas nos finais de semana que não trabalham. Ainda em fase de adaptação, Juliana diz que não se acostumou com a distância de seu amado. “Ainda não consegui me adaptar do jeito que queria, sinto muito a falta dele, mas sei que é melhor”.

Para suprir o tempo longe um do outro, o casal foca no trabalho e realiza outras atividades, mas garante que o namoro não foi prejudicado com essa nova realidade. Usalio e Juliana têm planos de em breve se casarem e constituir uma família. Eles garantem que a confiança é fundamental em um namoro a distância. “Para um namoro assim, é necessário acima de tudo, confiança. Ela ajuda a fazer o amor durar. Nosso relacionamento sempre foi bem transparente, não damos motivos para um desconfiar do outro”.

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