Self

Outras Ondas – A culpa que somos nós

Todo pensamento, desejo ou ação tem suas consequências. Toda negligência, também. Por muitas vezes, tentamos ignorar essa premissa de base. Mas ela também ignora essa nossa vontade. Funciona por si só. As consequências denunciam à consciência os erros cometidos na vida. Uma vez conscientes das falhas, brota na alma um dos sentimentos mais controversos que se pode cultivar: a culpa.

Podemos compará-la a uma espécie de cicatriz que inviabiliza a plenitude dos movimentos no presente. É o referencial de uma realidade mal sucedida que, na fantasia, deve ser reparada ou ressarcida para que a vida tenha continuidade. Uso deliberadamente o termo fantasia, pois tal reparação só poderá se dar no campo do imaginário. O tempo não permite um retrocesso para que tomemos a melhor atitude, para que evitemos o dano. Ou seja, a culpa aparece como um feto natimorto: apesar dos esforços gestacionais, não oferece nenhum alento ou capacidade de transformação. Apenas frustra, dói, imobiliza, cerceia.

A imagem de maternidade é interessante por diversos motivos. A começar, pois a marca primordial da culpa desponta no nascimento. As dores e restrições do parto (e do pós-parto) ensinam todo filho a assumir uma postura de dívida em relação à mãe, pela própria vida. Débito este que, a depender da maturidade materna, poderá ser amenizado ou agravado. Ademais, as questões de maternagem também acabam por ser uma fonte inesgotável para reforçar essa dinâmica. A culpa é da mãe, como nos ensina Freud, tem grande valia e se desdobra em diversas facetas: a culpa de uma suposta insuficiência no papel materno, a culpa que advém do vínculo simbiótico entre mãe-filho, a culpa da transferência da atenção devida à mãe para outros agentes, a culpa (do filho) por nunca conseguir restituir o esforços e a abnegação materna…

Podemos pensar nesse sentimento a partir de duas modalidades. A primeira é residual, herdada a partir dos valores aos quais fomos expostos e que nos condicionaram a partir das vivências familiares. Envolvem um complexo sistema de crenças, que envolve questões morais e religiosas. No desenvolvimento da personalidade, conseguimos até substituir parte dessas crenças – apesar de muito arraigadas. A outra classe de culpa é a que adquirimos a partir das nossas próprias escolhas, sendo assim autoimposta. Ou seja, é a traição ao que decidimos acreditar ou viver. E, como tal, pode propiciar um peso extra.

Culpamo-nos por aquilo que fizemos de errado, mas também por aquilo que os outros consideram como um erro. Ou seja, damos a permissão para sermos medidos com uma régua que não é a nossa, por parâmetros que não atendem minhas possibilidades, expectativas e potências. Pouco importa sobre a forma ou sobre a origem, toda culpa gera o mesmo mal estar. E, como tal, precisa ser interpretada como uma inutilidade.

Há quem pule para retrucar, dizendo que as experiências do passado são úteis para que não repitemos os mesmos erros. Concordo plenamente. Se há uma validade no que ficou para trás, será essa: o aprendizado, a chance de fazer diferente, de renovar-se. Mas isso não deve ser uma justificativa para que condicionemos nossos passos a uma realidade estagnada – ou, o que é pior, a algo que poderia ter existido, mas nunca existiu. Idealizar o passado ideal, as falas ideais, não nos afasta das consequências da precipitação ou do despreparo. Muitas vezes, em análise percebemos que o evento que gerou a culpa foi exatamente o que poderia ser naquelas circunstâncias. Ou seja, fazemos simplesmente o que conseguíamos fazer, fomos quem poderíamos ser. E ninguém pode ser acusado ou punido por ser insuficiente, desde que não haja a má fé.

(continua)

Outras Ondas: O que é meu e o que está em mim

Não tenho o costume de reler meus textos, tempos depois. E tenho uma razão muito clara para isso: na maioria das vezes, bate um estranhamento de não entender como as palavras surgiram, se encadearam, ganharam asas e deixaram de ser minhas. Desconheço e aprendo com coisas que eu mesmo escrevi, como se me fossem alheias.Talvez o engano comece por aí: é bem possível que elas nunca tenham sido minhas. Não falo aqui de plágios ou mediunismos, mas sim da força dos afetos: quando nos chegam, eles nos invadem com ideias e imagens das mais diversas ordens. Laboriosamente, tento enquadrá-las em cinquenta e poucas linhas, nem sempre retas, nem sempre belamente sinuosas.

Mas qualquer palavra sempre me soa insuficiente. Isso porque os afetos estão aí para serem sentidos, e não definidos. Inclusive, um dos maiores desafios que percebo, em mim e em quem a mim recorre, é a capacidade de diferenciar as emoções. Separar carinho, respeito, companheirismo e amor. Separar raiva, inveja, mágoa, decepção. Na maioria das vezes, os afetos nos surgem encadeados. Difícil é saber quem é que puxa a fila, mobilizando os demais ao seu serviço.

Saber quem é quem é importante para que não sejamos injustos, conosco e com aquilo que está fora de nós. Na indiferenciação, quando colocamos diversos afetos em grandes cestos, corremos o grande risco de exaltarmos aquilo que não merece nossa atenção; ou de dispensarmos algo que, apesar de estar “em más companhias”, poderia ser útil para a nossa progressão. Por um lado, os afetos nos expõem a riscos. Entretanto, sem eles vivemos a apatia de quem é expectador da própria trajetória, sem encarnar na própria vida.

Afetos têm, por característica, o poder de modificar nossas emoções, impressões e pensamentos. Condicionam os gestos, nos mobilizam a uma compreensão altamente subjetiva da realidade. Chegam-nos quando querem e não necessariamente quando evocados – são como deuses, que se apresentam de forma arrebatadora, mas que não se deixam conduzir pelas vontades da consciência. Agitam nossos espíritos, conjurando-lhes vontades, e nem sempre se mostrando de frente. Quase sempre, só nos atentamos às consequências por eles geradas quando nos abandonam, ou cessam.

Os afetos não são meus, nem seus, nem de ninguém. Assim sendo, não podem ser razão de orgulho ou vergonha, de cassação ou de promoção. São simplesmente dignos de respeito, acato e reverência. Não devemos afrontar os afetos, sob a pena de sermos penalizados por eles – até o mais benevolente dos deuses é irascível quando ignorado ou menosprezado. Todo afeto tem a sua importância e necessidade, e nos cabe aprender a hora, o local e a companhia para vivenciá-lo. Precisam ser cultivados, em vez de cativados: quando conciliados com os afetos, podemos aproveitar deles e fazê-los presentes sem que nos surpreendam – tanto. Esse é o caminho da saúde, em seu conceito mais amplo: físico, emocional, mental e espiritual.

Nem sempre busco esse ou aquele afeto para conduzir meus escritos. Mas é meio mágico: logo que começo, algum se aproxima mais. Não entendo, nem procuro entender, o que eles vieram fazer aqui, nesse exato momento. Mas fico atento a perceber quais as transformações que propiciam. Em mim, nos outros, no mundo. Sinto que o dever foi cumprido quando promovem essa remexida, seja quando o leitor concorda ou quando ele discorda das minhas ideias. Minhas, que nada! Das ideias que me atravessam, que me inquietam, que me levam ao desconforto e à necessidade de falar o que precisa ser dito, de fazer o que precisa ser feito.

***

Bethânia, cantora que admiro profundamente, soube sintetizar a força dos afetos quando nos atravessam. Compartilho com vocês.

Área H: Sexo nunca mais

O portal Área H me consultou para uma reportagem sobre assexuados. O resultado está aí:

***

 

Sexo nunca mais

Gênero ou desvio? Saiba por que algumas pessoas abdicam do sexo e veja o que especialistas têm a dizer sobre a assexualidade

Por Danilo Barba

Num universo recheado de publicidade sensual, baladas liberais e periguetes, você já imaginou a vida sem sexo? Enquanto isso pode soar um desperdício para muitos, também não são poucos os que decidem eliminar completamente a relação sexual com parceiras. Se a assexualidade antes era apenas um termo usado nas aulas de biologia para falar da reprodução de amebas, hoje a palavra ganhou bandeira e até identidade.

Representada pela Aven (Asexual Visibility and Education Network), rede que luta pela visibilidade dos assexuados no mundo, abdicar da transa com outras pessoas agora é visto como uma nova orientação sexual. Segundo Breno Rosostolato, professor de psicologia da Faculdade Santa Marcelina, ela deve ser compreendida desta forma porque o assexuado não reprime seus desejos sexuais como os celibatários. “A masturbação, por exemplo, é uma alternativa para a excitação, cuja ejaculação possui efeito aliviador e diminui o estresse. O autoerotismo dispensa a relação com o outro e a atuação da libido é presente, satisfazendo a excitação”, explica ele.

Apesar do DSM (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders), catálogo de doenças mentais da associação americana de psiquiatria, classificar este comportamento como Desordem do Desejo Sexual Hipoativo — considerada um desvio — Rosostolato é categórico: “assexualidade não é uma doença, mas uma escolha”.

Mas, afinal de contas, o que leva alguém a erradicar de sua rotina algo que promove tantos benefícios para a mente e o corpo? Bem, de acordo com o professor, a coisa é mais complexa do que parece. Ele esclarece que existem grupos na assexualidade, como os românticos ou libidinosos, que se permitem a atração romântica e conseguem se envolver com outras pessoas, namorar e até casar. O envolvimento é puramente afetivo e o sexo apenas com o intuito de procriar. Já os não-românticos não possuem intimidade física ou troca de carícias — se caracterizam pela ausência de desejo, onde o envolvimento amoroso não é permitido.

“De um modo geral, os assexuados sofrem muito preconceito e são discriminados por suas escolhas. O sentimento de culpa é atormentador e angustiante, imputado por uma sociedade carente de afeto. Nos dias de hoje, fazer sexo e ser libidinoso são obrigações e, por isso, sofrem distorções. O prazer pode ser destinado a outros setores da vida como o trabalho, exercícios físicos ou aos cuidados dos filhos, isso para ficar em alguns exemplos. É um erro restringir a libido ao sexo”, defende Rosostolato.

Por outro lado, embora o psicoterapeuta junguiano João Rafael Torres concorde em parte com o professor de psicologia, ele não descarta as experiências traumáticas, visões distorcidas da sexualidade e dogmas religiosos que “participam bastante desse comportamento”, afirma. Segundo Torres, o fato dos assexuados se unirem sob uma bandeira não altera em nada as motivações que os levaram a esta opção de comportamento. Para ele, na maioria dos casos, experiências traumáticas são responsáveis pela suspensão da vida sexual em algum momento da vida — o que é comprovado pelo retorno do desejo após a superação.

“No entanto, é interessante porque eles não praticam sexo mas gastam um bom tempo com a temática sexual — alimentando fóruns, buscando iguais etc. Não seria isso uma forma compensatória para uma vivência sexual insatisfatória ou inexistente?”, desafia o terapeuta. Para ele o sexo não deve ser uma obrigação, e o que importa é se a prática (ou a não-prática) respalda o indivíduo com segurança, sentido existencial, bem estar e integração de valores.

***

Clique aqui para ler a reportagem no site Área H.

Outras Ondas – Quando a hora se faz

O mundo é grande, o sol nasceu para todos. Em tese, todos temos potenciais e limitações. Assim sendo, poderíamos pensar que as oportunidades de realização são distribuídas de forma igualitária. E, ao que parece, verdadeiramente são. No entanto, enquanto algumas pessoas deslancham, outras permanecem estagnadas, tropeçando nos próprios pés. Algo parece separar a humanidade a partir das chances que a vida oferece.

O estigma do oportunista está associado a uma postura de excessivo egoísmo – quando alguém não mede esforços para se beneficiar ou se autoafirmar, em detrimento da liberdade e do bem estar alheio. Acho que as coisas não são bem assim. É bem verdade que “aproveitar as oportunidades” pode ser a desculpa ideal para o egoísta se realizar. Mas saber buscar e validar oportunidades não corresponde a um traço distorcido na personalidade. É justamente o contrário: desde Darwin, sabemos que sobrevivem os mais adaptáveis à própria realidade. E muito disso passa pela capacidade de enxergar saídas antes dos demais.

Muitas vezes, a falta de oportunidades é a queixa habitual para abrigar nossa inércia. E, no fundo, todos queremos uma vida suave, prazerosa e farta de boas histórias para contar – de preferência, que nos cheguem de forma gratuita, nos deixem ilesos e não atrapalhem nossos velhos costumes. Para esses, a vida sempre parece dura. Isso por pedir ação, e não reação. Oportunidades dependem de empenho. E só com empenho, dedicação e entrega que conseguimos determinar diretrizes mais sólidas para nosso destino. A perspicácia, invejada pelos ditos ingênuos, é um exercício de exposição ao risco. Como tal, desenvolve-se quando praticada.

Se não nos deparamos com a providência, devemos nos perguntar como está o olhar sobre nossos propósitos. É bem provável que a falta de perspectivas ajude a emperrar a conjectura do momento: quando estamos esvaziados de sentido, qualquer saída parece insuficiente ou inatingível. O sentimento de inadequação desmotiva para qualquer esforço. E ele é apoiado pela ausência de determinações. Precisamos deliberar sobre a própria vida, do pequeno para o grande, para que a realidade se transforme. Os efeitos desse esforço costumam ser rápidos e gratificantes: é como um veículo que, quando engrena e pega velocidade, requer apenas a perícia da administração. E, é claro, o olhar atento para perceber os melhores caminhos a percorrer – ou seja, as próximas oportunidades que devo aproveitar.

Concordo que nem todo resultado aparece no tempo em que determinamos como o ideal. Estaríamos prontos para o resultado, para o desapego da vida atual? Nossos problemas, e a ausência de alternativas para resolvê-los, estão para a âncora que o pescador usa para aportar: oferecem a estabilidade na realidade (afinal, todos precisam de problemas que validem sua existência), mas não permitem que ele se beneficie das riquezas que só se manifestam mar adentro. Impedem assim o livre fluxo para demais possibilidades. O oceano é imenso, mas é necessário ter disposição e coragem para encará-lo. Em suma, quando desejamos uma mudança, também é preciso querer se desacostumar com o que se é.

Uma boa oportunidade se faz de um diálogo pescado na fila do banco, de um telefone anotado numa contracapa de um livro, do contato com o velho amigo, de um programa de televisão que assistimos de forma descompromissada. Mas principalmente das dificuldades que o mundo (?) nos impõe. Ao olhar de perto, podemos perceber que cada problema nada mais é que a chance oferecida para uma reforma interior, para um maior comprometimento com a própria história. Conscientes disso, entendemos que a melhor hora é agora, que meu tempo é hoje e que este é o melhor lugar para ser feliz.

Outras Ondas – Como as pessoas se juntam

Acima de nossas cabeças, um enorme emaranhado se desenha. São linhas imaginais, teias energéticas, que constituem uma interessante configuração: as relações que estabelecemos com nossos amigos. Nunca sabemos como elas se formam. Quando menos percebemos, já estamos enlaçados. Amigos nos geram compromisso, com eles e conosco. Mas é uma demanda boa: a partir deles nos tornamos pessoas mais interessantes, mais receptivas e, principalmente, mais realizadas.

Virou clichê dizer que as amizades constituem a família que escolhemos, o povo eleito para compartilhar nossas alegrias e dissabores. Mas é assim mesmo. O preço inestimável de uma amizade é capaz de nos propiciar uma série de bons atributos, dos quais tanto anseia a nossa alma: o pertencimento, a reciprocidade, a identificação. Combatemos, com eles, o sentimento de solidão, inerente à condição de humano.

Geralmente, as amizades não são programadas convencionalmente. Não as leais. Estas se manifestam de forma espontânea. De uma simples combinação de gostos ou necessidades, evolui para uma complexa troca. Quando a amizade é sincera, ficamos meio que misturados. Percebemo-nos pelo outro. Não fazemos nenhuma resistência às contaminações afetivas: comemoramos juntos, compramos brigas que nada nos dizem respeito, convivemos com o silêncio da cumplicidade, sem que o mesmo nos traga nenhum tipo de constrangimento. Amigos verdadeiros são capazes de antever nossas vitórias ou derrotas, percebem o que somos ou como estamos de uma forma particularmente subjetiva. O entendimento é imediato, como em uma intuição.

Não que uma amizade só exista onde não há divergências. As mais produtivas, inclusive, são aquelas que nos levam a novos pontos de vista, que embargam nossas tentativas de sermos igualmente nocivos a nós mesmos. A discussão, com sinceridade de propósitos e maturidade, leva ao crescimento de ambos. Afinal, a verdadeira amizade é feita entre pares – e não entre mestre e discípulo, ou coisa que o valha.

É natural que, ao longo da vida, troquemos de amizades, assim como trocamos de gostos e de prioridades. A vida presente faz com que um ou outro fio, dos que pairam em nossa cabeça, se sobressaia aos demais. Há amigos que se enciúmam com isso – mal sabem que nunca serão perdidos ou trocados. Se a amizade é real, eles não sumirão do repertório, apesar de um afastamento forçado por caminhos dissonantes. Bastam alguns minutos para que a velha postura de intimidade se reestabeleça. (Essa tal intimidade, convém ressaltar, é mais resultado do afeto que do tempo: amizades não se contam com anos, e sim com a capacidade de transformação que são capazes de propiciar).

Uma vida sem amizades é uma vida empobrecida. Dinheiro e trabalho não substituem amigos. Namoros e casamentos, também não. Nem mesmo os livros e discos. A melhor forma de preenchermos o que nos consome é a partir da diversidade humana. Histórias de gente, sabe? E, como profissional de ajuda, percebo que os relatos, quando contados por amigos, chegam diferente nos meus ouvidos. A imparcialidade dá lugar ao desejo imenso de querer oferecer algo, seja gargalhada, abraço ou bronca. Amigos nos desconcertam quando nos revelam o quanto deles dependemos, o quanto nos completam, como é bom se sentir e ser sentido.

Há quem se ressinta da falta de amizades, ou de uma baixa competência para conquistá-las. A estas pessoas, o que talvez falte seja a coragem para se enfrentarem. Os amigos, assim como os inimigos, são as nossas melhores possibilidades para encararmos o que somos, no que pensamos e como agimos. São a prova viva de que o pilar que sustenta a vida humana é a relação.

nivas gallo